Ilustração Antonio Máximo
Ilustração Antonio Máximo

Riqueza e renda: questões metodológicas

Eric Gil

Há alguns dias saiu mais uma edição do relatório da ONG britânica Oxfam, “A Economia para o 1%”.[1] No documento – disponível também em português no portal brasileiro da ONG –, as principais conclusões foram que “o 1% mais rico da população mundial detém mais riquezas atualmente do que todo o resto do mundo junto” e que “em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Esse número representa uma queda em relação aos 388 indivíduos que se enquadravam nessa categoria há bem pouco tempo, em 2010”.

Isto realmente é para nos preocupar, mas o que é mesmo riqueza? É importante saber que riqueza e renda são dois conceitos distintos. O primeiro, riqueza, refere-se à estoque, como ativos imobiliários (apartamentos, casas, prédios, terrenos, etc.) e ativos financeiros (empresas, ações, títulos de dívida, etc.). O segundo, renda, refere-se à fluxo (salário, remunerações de trabalho autônomo, juros, lucro, aluguel, etc.).

Todos nós temos algum tipo de renda para sobreviver, nem que seja uma renda transferida pelo governo ou por outras pessoas físicas (como familiares ou pessoas na rua, para o caso de um mendigo), já riqueza só algumas pessoas têm, e quando as têm geralmente são valores relativamente baixos se compararmos ao 1% de cima. O que pode ser materialmente uma riqueza? Os bens mais comuns de riqueza para a classe média são automóveis e casas próprias (não para alugar a outrem). Eu mesmo, um assalariado em início de carreira, não possuo nenhuma “riqueza”, ou seja, quando um órgão público vai me contabilizar, eu contribuo em zero unidades monetárias de riqueza, que é o caso de muitas outras pessoas. Então quando pensamos em concentração de riqueza, é óbvio que ela é monstruosamente desigual, chegando ao horrendo número de 1% dos mais ricos terem o mesmo estoque de riqueza dos outros 99% das pessoas no mundo.

Já sobre a distribuição de renda, ela não chega a ser tão monstruosa (apesar da mensuração da concentração de renda ser subestimada, como já expus neste blog em artigo anterior intitulado de “O mito da desconcentração de renda no Brasil”),[2] pois todo mundo precisa de alguma renda para sobreviver: no Brasil, por exemplo, em estudo recente elaborado pelos economistas Adriano Pitoli, Camila Saito e Ernesto Guedes, ligados à Tendências Consultoria Integrada, constatou a partir dos dados da Receita Federal (ao contrário dos estudos tradicionais, que utilizam os dados do IBGE – Censo e PNAD) que 2,5 milhões de famílias da classe A são responsáveis por 37,4% da massa da renda nacional.[3] Ou seja, ambas são mazelas de nossa sociedade, mas é importante saber o que quer dizer cada uma delas.

O estudo publicado pela Oxfam foi criticado pelos portais mais reacionários do país (os quais prefiro não citar aqui), principalmente pela questão do patrimônio referido ser o patrimônio líquido, que é igual ao patrimônio total subtraído as dívidas. Isto se dá porque a base de dados que a ONG utiliza é a do banco Credit Suisse, o “Global Wealth Databook 2015”. De fato, a utilização de patrimônio líquido, ao invés de meramente patrimônio, resulta em uma concentração ainda maior da riqueza. Pois, por exemplo, alguém que possui um financiamento da casa própria não teria como riqueza a casa, e sim apenas o valor da casa o qual ele já pagou. Não é um absurdo metodológico, vide que se esta pessoa precisar vender a casa (transformar o ativo imobiliário em algo líquido, dinheiro) só terá disponível uma parte do dinheiro, já que o restante teria que executar a dívida referente à casa com o banco que a financiou.

Os filhos do liberalismo tosco brasileiro querendo, ou não, a concentração de riqueza e de renda no Brasil e no mundo é gigante e aumentou ainda mais com a crise econômica atual, movimento também demonstrado no documento. Se não acreditam nos números para esquecer o conto de fadas do capitalismo maravilhoso que só existe na cabeça deles, podem abrir a porta de casa (antes disto avisar à mãe) e passear pelas ruas de sua cidade.

Notas

[1] Oxfam. Uma economia para o 1%. Documento informativo da Oxfam, n. 210. 18 jan. 2016. Disponível em: http://bit.ly/202WXZn

[2] Eric Gil. O mito da desconcentração de renda no Brasil. Blog Junho, 2 set. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1ZRlU4s

[3] Luiz Guilherme Gerbelli. Classe A tem maior fatia da renda do País. O Estado de S. Paulo, 16 jan. 2016. Disponível em: http://bit.ly/1JaCM4h