Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

Rolling Stones no Maracanã: notas sobre a turnê Olé (2016)

Romulo Mattos

A turnê Olé, dos Rolling Stones, passou pelo Maracanã na noite de 20 de fevereiro, tendo a banda desempenhado ótima performance. Com pouco espaço para os discos recentes, o repertório privilegia os sucessos da banda até o início dos anos 1980. Essa foi uma escolha certeira devido ao formato de arena do show, e ao caráter de reencontro com os fãs brasileiros, após 10 anos – certamente, estavam todos ávidos para cantar os clássicos stonianos. O estádio estava quase todo ocupado, o que chama atenção, devido ao alto valor dos ingressos (assunto que será tratado no fim deste texto).

A abertura (sem brilho) do evento ficou a cargo do Ultraje a Rigor, liderado por Roger Moreira, autor de músicas sexistas e que, se não bastasse, promovem o discurso generalista contra a corrupção, reproduzem a ideia de ojeriza à política e manifestam um nacionalismo tacanho.[1] Ele também se destaca como uma personalidade do Twitter que é condescendente com a ditadura militar (vide o seu inacreditável ataque ao escritor Marcelo Rubens Paiva), e que debocha de campanhas feministas de sucesso. Ao que parece, as coisas não correram bem para o cantor da nova direita no Maracanã. Se ele imagina fazer as suas pregações pró-impeachment em um estádio de futebol histórico e lotado, os seus planos literalmente naufragaram. A forte chuva que caiu no Rio de Janeiro esvaziou o seu show e ainda interrompeu o funcionamento do telão. Para piorar a sua situação, ele teve de tocar com o volume de som baixo, como é de praxe nos shows de abertura realizados pelos artistas nacionais. E como tragédia pouca é bobagem, um coro vindo da área VIP o chamou de “coxinha”! (Vejamos a que ponto chegou a sua credibilidade perante o público). Referindo-se aos supostos apoiadores do governo (e dando vazão ao seu ideal golpista), Roger respondeu: “Vocês vão cair!”. Em seguida, lançou mão de seu conhecido humor grosseiro ao dedicar a música “Filho da puta”, do LP Crescendo (1989), aos que o provocavam. Após ter visto a repercussão negativa de sua apresentação na grande imprensa, o roqueiro negou ter sido chamado de “coxinha”, e se indignou com o tratamento dispensado pela produção do evento, que o teria tratado como “lixo”.

O choro de Roger mostra que o mundo dá voltas – e que os artistas da nova direita alteram radicalmente o seu comportamento político de acordo com as circunstâncias. Em 2001, O Rappa liderou um boicote ao Rock in Rio, ao saber que seria obrigado a se apresentar na parte da tarde (ou seja, com o dia ainda claro e com pouco público), e que sequer teria direito a passar o som (em outras palavras, não poderia realizar o ajuste do equipamento sonoro antes da apresentação). Além da banda do politizado Marcelo Yuka, Cidade Negra, Skank, J Quest, Raimundos e Charlie Brown Jr se retiraram do festival. Esses músicos da geração dos anos 1990 – todos no auge – exigiam a mesma estrutura oferecida aos estrangeiros. Mas Roger furou o movimento reivindicatório de seus colegas e conquistou para o Ultraje os seus últimos 40 minutos de fama.

Ao se indignar com as condições enfrentadas pelas bandas de abertura, talvez o roqueiro paulistano também tenha se esquecido de outro episódio, ocorrido com os Replicantes, que se apresentaram antes do estourado Ultraje em 1986, no auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre. De uma hora para outra, essa banda desistiu de emprestar a sua bateria (assim como o praticável) aos novatos que, sem cachê, dispuseram-se a entreter o público. Sem tempo hábil para encontrar um instrumento adequado a uma apresentação com estrutura profissional, Carlos Gerbase (que revelou essa história nas redes sociais) tocou com sua estropiada bateria Pinguim, tendo se divertido mesmo dessa forma. Hoje ele tem orgulho do episódio, por acreditar que a bateria do Ultraje não merece as suas nádegas.

Para os críticos de rock que afirmam ser necessário separar a música do Ultraje da postura política de Roger (devendo a primeira ser respeitada), deixo claro que não acredito na concepção idealizada de cultura que a concebe como um domínio apartado do mundo social. Não obstante, o seu conservador ideário aparece claramente nas letras de suas canções. Na mesma turnê, os paulistas tiveram mais sorte porque viram os Titãs, uma das grandes bandas da história do rock brasileiro, no show de abertura – sendo essa uma antiga tradição da indústria musical, cada vez menos praticada, ou levada a sério no Brasil. Em 1995, na turnê Voodoo Lounge (cuja arrecadação bruta foi de 320 milhões de dólares, um recorde na época), quem cuidou da plateia brasileira antes da apresentação dos Stones foi ninguém menos que Rita Lee, o maior nome feminino do rock nacional. Ela, que conta com a admiração de Sir Mick Jagger, saiu ovacionada do palco. Outro papo.

Apesar de o Ultraje ter vendido muitas cópias dos seus três primeiros discos, certamente, há artistas bem mais representativos do rock brasileiro. Não é qualquer banda que merece a honra de dividir uma noite com os Stones, um nome com tantos serviços prestados à música popular internacional. Os veteranos ingleses abriram o concerto do Maracanã com “Start me up”, possivelmente o seu último grande clássico, proveniente do álbum Tatoo you (1981). Ela geralmente é escolhida para iniciar os shows do grupo, sendo o seu contagiante riff de guitarra perfeito para esse propósito. Keith Richards revelou em sua autobiografia, Life (2010), que já viu muito músico tentando em vão reproduzir aquele riff, pois o segredo de sua abordagem como guitarrista está na afinação em sol aberto (ré-sol-ré-sol-si-ré), por ele utilizada desde o fim dos anos 1960. O show continuou intenso com “It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)” e “Tumbling Dice”, respectivamente, sucessos dos discos It’s Only Rock ‘n’ Roll (1974) e Exile on main ST. (1972). Esse último é considerado o último trabalho de peso dos Stones – e, para muitos fãs e críticos, o melhor, apesar da mixagem que enterrou a voz de Jagger (como o próprio reconhece).

Todos os LPs da fase áurea da banda foram representados por, pelo menos, uma canção. Do Beggars Banquet (1968), a banda tocou “Sympathy for the devil”, com a sua famosa batucada influenciada pelo samba (no show, o telão foi tomado por imagens de magia negra); do Let it bleed (1969), o mais visitado, “You Got the Silver” (com Keith Richards no vocal e ao violão), “Midnight Rambler” (que, para ser justo, seguiu mais a longa versão do álbum ao vivo Get Yer Ya-Ya’s Out!, de 1970), “Gimme Shelter” (momento em que Jagger cantou em dueto com Sasha Allen, a backing vocalist) e “You Can’t Always Get What You Want” (com o Coral da PUC-Rio, que reproduziu o arranjo vocal da versão original); do Sticky Fingers (1971), “Brown sugar” (cujo conhecido riff de guitarra foi criado por Jagger, e não por Richards, que o adora). Não faltaram singles históricos do grupo, não incluídos nas versões inglesas de seus LPs de estúdio, como “Paint it Black” (1966), a primeira dos Stones que foi arranjada com uma cítara indiana, “Jumpin’ Jack Flash” (1968), que marcou a virada do grupo para o seu período mais fértil e criativo, e “Honky Tonk Women” (1969), com sua famosa introdução sincopada em sol maior (essa, aliás, foi composta no Brasil, conforme revela o livro Sexo, Drogas e Rolling Stones, de José Emilio Rondeau e Nelio Rodrigues, e lançada em compacto juntamente com  “You Can’t Always Get What You Want”).

Outros sucessos tocados foram a balada “Angie”, primeiro lugar nos Estados Unidos e na Inglaterra – incluída no disco Goats Head Soup (1973) –, e a disco music “Miss you”, do álbum Some Girls (1978). Essa música foi responsável por um bom momento do show, devido à levada suingada do baixista Darryl Jones (inviável para o antigo baixista, Bill Wyman) e também ao coro entoado pela plateia. O repertório contou ainda com “Before They Make Me Run”, mais uma música cantada por Richards, do último LP citado; “Out of Control”, do disco Bridges to Babylon (1997); “Doom and Gloom”, uma das duas músicas inéditas da coletânea GRRR! (2012), que fez parte das comemorações do aniversário de 50 anos da banda; e a inevitável “Satisfaction”, que entusiasmou os fãs no encerramento do show. A promessa mais desrespeitada da história do rock diz respeito a essa música: certa vez, Jagger afirmou que não a cantaria depois dos 30 anos de idade.

O único cover do espetáculo foi “Like a Rolling Stone”, clássico de Bob Dylan, que os Stones incluíram no disco Stripped (1995). Essa música foi escolhida pelo público em votação realizada na internet. Em São Paulo, as canções eleitas pelo voto popular foram “Bitch” (do Sticky Fingers), no dia 24, e “She’s a Rainbow” (do Their Satanic Majesties Request, lançado em 1967), no dia 27. A escolha dessa música – cuja versão original conta com Jimmy Page na guitarra e arranjo orquestral de John Paul Jones, futuros membros do Led Zeppelin – deixou Jagger surpreendido.

É claro que, a essa altura, a chamada “Maior banda de rock’n’roll do mundo” – lema inventado pelo promotor e apresentador de seus shows no fim dos anos 1960 – não vai conseguir incluir todas as suas canções clássicas ou famosas em um único show. Mesmo assim, chama atenção as ausências: de um tradicional número de Richards, “Happy”, do Exile (tocada em São Paulo, no dia 24); de uma conhecida balada, geralmente presente em seus shows, “Wild Horses” (incluída no show do dia 27), do Sticky Fingers; e do single lado-A duplo de grande sucesso, “Let’s spend the night together”/ “Ruby Tuesday”, incluído na versão americana de Between the bottons (1967). Vale notar que a polêmica passou longe do repertório, que excluiu, por um lado, um hino machista dos anos 1960, “Under my thumb”, do Aftermath (1966), embora essa música tenha sido tocada nas turnês de 1997-98 e 2006; por outro, a canção que marcou a adesão de Jagger à luta empreendida pela nova esquerda britânica, “Street fighting man”, do Baggars Banquet. Essa composição será analisada em um texto específico sobre os Rolling Stones e a política da década de 1960, a ser publicado em breve no Blog Junho.

Quanto ao desempenho individual dos integrantes, Jagger é dono de um vigor físico impressionante. Aos 72 anos, ele percorre, cantando e correndo, toda a extensão de um palco gigante, que avança sobre a plateia. Ele descansou durante apenas duas músicas, cantadas por Richards. Mesmo o antigo truque de pegar a guitarra para economizar energias foi empregado apenas uma vez (durante a primeira metade de “Miss you”). A sua voz está bem cuidada, embora não tenha mais os agudos dos anos 1960 – ok, os cantores de apoio estão lá por isso. Mas é importante lembrar que o seu estilo agride bastante as cordas vocais, o que faz aumentar ainda mais o seu mérito – o seu canto só falhou uma vez em todo o show. Jagger foi ainda um excelente mestre de cerimônias, o dono do espetáculo, que apresentou todos os músicos presentes (e se deu ao luxo dispensar a sua apresentação ao público). Esbanjando simpatia, falou mais em português do que em inglês com a plateia (o que deve ter relação com o convívio com o seu filho brasileiro, Lucas). É difícil não concordar com Watts, para quem Jagger é o maior frontman da história, ao lado de Michel Jackson em sua melhor fase, como lemos no livro According to the Rolling Stones (organizado pelo próprio Watts, Dora Loewenstein e Philip Dodd).

Parceiro de composições de Jagger, Richards é um guitarrista extremamente carismático, capaz de levantar o público com solos simples e cativantes, dentro do vocabulário rock’n’roll. As músicas que cantou, com seu figurino de roqueiro cigano, foram muito bem recebidas pela plateia, apesar dos seus parcos recursos vocais – vale ressalvar que a sua voz desgastada por anos de excesso é tida como um charme pelos fãs. Ao ser apresentado pelo seu colega, foi efusivamente festejado pelos espectadores. Watts não abandonou a simplicidade pela qual é conhecido (como pessoa e como baterista), e nem por isso é pouco querido pelo público. E Ron Wood pode não animar tanto a plateia com os seus solos econômicos, mas é inegavelmente uma figura simpática, principal motivo pelo qual foi escolhido para uma banda que perdera o grande Mick Taylor e testara Jeff Beck, entre outros virtuoses, para o seu lugar. O ex-guitarrista dos Faces cumpre bem a sua parte no trato de fazer as duas guitarras dos Stones soarem como uma só. Muitos pensaram que, com a saída de Wyman, Wood pudesse ser deslocado para o baixo (instrumento com que brilhara no Jeff Beck Group, nos anos 1960), e cedesse o posto de guitarrista a Taylor. Mas foi apenas um sonho.

Como os timbres escolhidos pela banda também estavam orgânicos, longe dos sintetizadores ouvidos em shows da Steel Wheels/Urban Jungle Tour (1989-90), o único senão foi a qualidade técnica do som (mal) distribuído pelo Maracanã. Era possível perceber que as grandes caixas de som atendiam apenas o trecho compreendido entre o palco e a metade do estádio – não coincidentemente, onde se encontrava a parte do plateia que pagou os preços mais altos. Quem ficou na segunda metade da arena, ouviu somente o rebatimento do som, com baixa definição e o devido atrasado. Em resumo, os que compraram os bilhetes nada premiados, ouviram uma música que não correspondia aos movimentos executados pela banda no telão. Nesse sentido, a produção deve ser criticada, sim: a falta de respeito com os brasileiros foi muito além daquela reclamada por Roger (que, é claro, não gostou de ter tido apenas 10 minutos para retirar seus equipamentos do palco). Para ouvir os Stones com boa capacidade técnica, foi necessário pagar, no mínimo, 900 reais, preço cobrado pela área “Premium”. Antigamente chamado de “Pista”, tal setor se estende da frente do palco até o meio de campo. O lugar que hoje leva o nome de “Pista” fica atrás da área “Premium”. Se dessa vez o Maracanã foi retalhado em 10 setores diferentes (fora o camarote), na primeira visita da banda ao estádio, em 1995, o público escolheu entre “Arquibancada” e “Pista”, apenas.

Infelizmente, a falta de preocupação com a qualidade técnica do espetáculo pelas produções estrangeiras no Brasil é uma tradição poucas vezes negada. Em 1990, David Bowie trouxe a turnê Sound + Vision para o Brasil sem a parte referente ao Vision e com o Sound bastante prejudicado pela acústica da Praça da Apoteose, que requer cuidados dobrados – essa foi uma grande decepção. Já o The Police se apresentou no Maracanã em 2007 com o som instalado por uma empresa que tratava da acústica de uma pequena casa de jazz da zona sul do Rio de Janeiro. Para os que se encontravam na arquibancada, a música ali escutada parecia saída de um radinho de pilha. Na semana anterior, o grupo se apresentara no Stade de France, e é difícil imaginar os parisienses pagando por um volume de som tão baixo. Um exemplo a ser seguido é o de Roger Waters, que já tocou em mais de um recinto ao ar livre no Rio e sempre ofereceu o melhor em termos de tecnologia sonora (a péssima acústica da Apoteose por exemplo, foi domada pela sua produção, o que pareceu um milagre para muitos). Um caso curioso foi o do Van Halen, no Maracanizinho, em 1983, quando o público foi torturado com a mesma potência de som que a banda utilizava em estádios de futebol europeus! Muitos atendimentos médicos foram realizados devido ao som alto, e algumas pessoas voltaram para casa com os tímpanos danificados. Segundo Luiz Antonio Mello, em seu livro A onda maldita, o guitarrista holandês que dá nome à banda morria de rir com os metaleiros que tampavam os ouvidos com as mãos, pedindo para abaixar o volume…

É uma pena que a qualidade técnica do espetáculo oferecida aos que estiveram presentes tenha variado brutalmente de acordo com os preços pagos por eles – ainda mais na cidade que proporcionara aos Stones o público recorde de 1,2 milhões de pessoas, em 2006, na praia de Copacabana. Já a qualidade artística da banda no palco é inquestionável, e isso ficou evidente até para os excluídos da fortuna maior que é ouvir em alto e bom volume as históricas composições Jagger e Richards, executadas ao vivo pelos próprios. Até quando as plateias de todo o mundo terão essa oportunidade?

Nota

[1] Ver MATTOS, Romulo. Roger Moreira: das diretas às indiretas já. Blog Junho, 5 de out. 2015. http://blogjunho.com.br/roger-moreira-das-diretas-as-indiretas-ja/