Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

“Se fosse só sentir saudades”: notas sobre a turnê Legião Urbana XXX Anos

Romulo Mattos

A ideia da excursão “Legião Urbana XXX Anos” nasceu após o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá terem entrado em contato com o farto material de estúdio que não foi aproveitado no seu primeiro disco, de 1985 – quando os imbróglios jurídicos forem superados, o álbum será relançado com um CD extra, contendo gravações inéditas. A experiência de ouvir versões alternativas de antigos sucessos emocionou a dupla, que resolveu realizar uma série de shows pelo país para comemorar o aniversário de três décadas da estreia do grupo no mercado fonográfico.

Esses espetáculos são também um presente para os fãs de diferentes gerações, reconhecidamente fiéis – quem se impressiona com o pacto sólido firmado entre os Los Hermanos e o seu público, não tem ideia do que os chamados Legionários são capazes de fazer para acompanhar a sua banda preferida. Principalmente, os concertos protagonizados por Dado e Bonfá em 2015 confirmam a força do patrimônio musical construído pelo grupo, que encerrou suas atividades em 1996, com a morte de Renato Russo. Quase 20 anos depois, a Legião Urbana é capaz de lotar uma casa de shows com capacidade para nove mil pessoas – o Espaço das Américas, na capital paulista.

São Paulo é um grande palco da banda. Os seus dois shows no Parque Antártica, o antigo estádio do Palmeiras, nos dias 10 e 11 de Agosto de 1990, merecem menção honrosa na história do rock brasileiro. Renato, Dado e Bonfá atraíram 60 mil pessoas na primeira noite (20 mil com ingressos falsos) e 40 mil na segunda. No dia 10, houve grande confusão na entrada do estádio, a polícia (como sempre) atuou de forma violenta, mas os que entraram no Parque Antártica presenciaram um grande espetáculo. O vocalista Dinho, do Capital Inicial, contou que nunca havia presenciado tamanha ovação para uma banda, nacional ou gringa. Até para os músicos era difícil escutar o som amplificado de seus instrumentos.

Essa relação especial entre a Legião Urbana e os fãs paulistanos – observada no dia 27 de maio de 2015, por ocasião do lançamento do livro Memórias de um Legionário (escrito por Dado, Felipe Demier e Romulo Mattos), na Livraria Cultura – foi confirmada no último dia 7 de novembro. Quanto à estrutura do espetáculo, o primeiro grande bloco foi formado pelas 11 músicas do primeiro disco, enquanto o segundo contou com 13 sucessos da banda. A parte do bis ainda reuniu fôlego para a execução de outros três hits. A coleção de êxitos comerciais do grupo é tão expressiva que Dado e Bonfá se deram ao luxo de ignorar “Eduardo e Mônica”. Por ser uma das canções mais emblemáticas dos anos 1980, seria justo inclui-la.

O papel de mestre de cerimônias ficou mesmo a cargo de Dado, que montou a banda de apoio – com Lucas Vasconcellos (guitarra), Mauro Berman (baixo) e Roberto Pollo (teclados) –, além de ter escolhido o vocalista André Frateschi para a difícil missão de substituir Renato Russo (um líder de ares messiânicos e também um cantor que explorava diferentes oitavas). Mais conhecido pelo grande público como ator de novelas da Rede Globo, Frateschi é um cantor seguro e experiente, que já estrelou espetáculos baseados na obra de Tom Waits e David Bowie. Acertadamente, ele recusa o papel de cover de Renato e canta com entonação e expressão corporal próprios. E alcança as notas emitidas pelo cantor original da Legião Urbana, sem forçar semelhança com o grave característico do mesmo. Curiosamente, quando era uma criança, nos anos 1980, Frateschi viajou com a banda na Kombi que a levou para a apresentação conjunta com a peça Feliz Ano Velho, baseada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva.

A turnê conta ainda com a direção musical de Liminha, o mais conhecido produtor do pop/rock do país, que foi baixista dos Mutantes. Convidado especial em “Tempo Perdido”, ele pode se vangloriar de ter tocado com as duas maiores bandas brazucas de todos os tempos. Enquanto aquele grupo merece ser lembrado pelo seu pioneirismo e pela sua contribuição estética, a Legião Urbana arrebatou corações e mentes pelo país, sem ter aberto mão de critérios mais propriamente artísticos, é claro. No show, Liminha revelou ao público que se sentia honrado por tocar com a maior banda do rock brasileiro.

O concerto foi iniciado com “Será”, o primeiro sucesso radiofônico. A plateia cantou o refrão com o punho erguido e o ímpeto de pregadores de uma causa justa. Esse foi um belo cartão de visitas, capaz de desarmar os que duvidavam de uma apresentação da Legião Urbana sem Renato (mas que não queriam ficar de fora da festa). A música foi tocada com o mesmo arranjo da gravação original, com exceção da guitarra de Dado, distorcida no show, mas não na gravação lançada em 1985 – na qual não pôde utilizar o seu pedal MXR Distortion +, porque os engenheiros de som evitavam esse tipo de efeito nas mesas que pilotavam.

É necessário abrir um parêntese: a guitarra de Dado é hoje mais potente e trabalhada do que na época da Legião Urbana. Presente ao palco com uma Fender Telecaster, ele se tornou um especialista na área dos pedais de efeito analógicos, produtor musical que é proprietário de um dos melhores estúdios da cidade do Rio de Janeiro, e um músico experiente que desenvolve convincentes solos de rock em diversas músicas – muitas vezes, com o wah-wah ligado.

Proposta bem diferente apareceu em “A dança”, cantada por Dado. Nesse caso, houve a modificação estrutural do seu arranjo, em primeiro lugar, pela retirada da bateria eletrônica; em segundo, pelo incremento no suingue da maior parte da canção; por fim, pelo refrão rock, com guitarras distorcidas em primeiro plano. O encerramento com vozes desacompanhadas de instrumentos musicais lembrou os segundos finais de “Geração Coca-Cola”. A propósito, determinados versos de “A Dança” são potencializados pela luta feminista realizada no tempo presente:

“Não sei o que é direito/ Só vejo preconceito/ E a sua roupa nova/ É só uma roupa nova/ Você não tem ideias/ Pra acompanhar a moda/ Tratando as meninas/ Como se fossem lixo/ Ou então espécie rara/ Só a você pertence/ Ou então espécie rara/ Que você não respeita/ Ou então espécie rara/ Que é só um objeto/ Pra usar e jogar fora/ Depois de ter prazer”.

Vale notar que o baixista Renato Rocha assinou a autoria dessa composição com os seus antigos companheiros de banda, mas o seu nome não foi mencionado no show. Todos os sucessos do primeiro álbum foram recebidos com entusiasmo pela plateia, que, ao reconhecê-los nos primeiros acordes, vibrava como uma torcida de futebol. Foi assim com a já citada “Geração Coca-Cola”, com “Ainda é Cedo” (adornada pela guitarra climática de Vasconcellos), com “Soldados” e com “Por enquanto” – entoada do início ao fim pelo público, que aproveitou o silêncio intencional de Frateschi para lhe roubar o papel de vocalista principal. O repertório do primeiro álbum foi encerrado com uma celebração coletiva, como convém.

No intervalo, a plateia ficou confortavelmente na companhia de Renato. Umas das pérolas encontradas por Dado nos arquivos sonoros referentes ao primeiro LP foi uma longa fala do vocalista sobre a Legião Urbana. Na gravação, ele divaga sobre as dificuldades trazidas pelo sucesso, numa época em que a banda era praticamente desconhecida. Ao final da reprodução desse registro, os fãs gritaram o nome de Renato, assim mesmo, sem o sobrenome artístico, o que sugere carinho e intimidade.

O segundo bloco trouxe os convidados, a maioria desconhecida do grande público. Também se apresentou o vencedor do concurso “Legionário por um dia”, organizado pelo programa Fantástico. O felizardo cantou “Conexão Amazônica” com competência e foi elogiado por Dado. A opção por artistas alternativos se relaciona principalmente com uma preocupação do guitarrista, observada desde os anos 1990, quando fundou a gravadora Rock It!: a de abrir espaço para novos grupos e cantores mostrarem o seu trabalho. Não foi por acaso a escolha do Cidadão Instigado para abrir os shows da turnê. Embora não seja novata, trata-se de uma banda independente, insubmissa à indústria. O seu último trabalho, Fortaleza, é um obsessivo tributo musical aos anos 1970, com passagens de rock progressivo, inclusive. É essa proposta artística ousada para os padrões atuais que o público ouve antes do início do concerto da Legião Urbana, um grupo mainstream, que no auge da carreira tocava em estádios de futebol.

Apesar dessa proposta centrada em artistas alternativos, a turnê apresenta sempre um convidado mais popular. O titã Paulo Miklos participou de shows anteriores. Na Pauliceia Desvairada, foi a vez de Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos, que cantou “Monte Castelo”. Apesar da dificuldade da linha melódica, Amarante se saiu bem e foi bastante aplaudido. Dado brincou com o convidado, ao dizer que a próxima música que esse cantaria seria mais fácil: “Quase sem querer”. O roqueiro de barba ruiva se incluiu entre os chamados Legionários quando, eufórico, afirmou que estava ao lado de sua banda preferida.

Outro desempenho vocal elogiável foi o de Frateschi em “Há Tempos”. Mas o número mais especial do segundo bloco foi “Pais e Filhos”, com Nicolau, filho de Dado, na guitarra, e João Pedro, rebento de Bonfá, na bateria. O fundador da Legião Urbana (ao lado de Renato) abandonou as baquetas e assumiu o vocal da música, tendo contagiado o público mesmo com o limitado alcance de sua voz. Diferentes faixas etárias estiveram presentes ao Espaço das Américas, tanto na plateia, quanto no palco. Nesse momento, o caráter do show ficou claro para quem ainda não o havia identificado. Trata-se de um reencontro histórico entre a banda e os seus seguidores, que ao longo dos anos compraram álbuns (Renato, Dado e Bonfá ainda vendem cerca de 100 mil discos por ano), formaram fã-clubes, organizaram encontros regionais e nacionais, realizaram tributos musicais, leram livros e assistiram a filmes e peças de teatro sobre a obra da Legião Urbana.

O bis teve “Faroeste Caboclo”, com o lado ator de Frateschi mais aflorado, “Índios”, com o vocal errático de Amarante (que não decorou os longos versos da canção), e “Que país é este”, uma das composições de protesto mais conhecidas da música brasileira – e não apenas do rock nacional. O discurso de Dado antes da execução dessa música foi muito significativo. Em termos irônicos, ele a dedicou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu suspender a ação penal que tramitava na Justiça Federal do Rio de Janeiro contra cinco militares reformados acusados pelo homicídio e ocultação de cadáver do ex-deputado Rubens Paiva – pai do escritor já citado. Essa atitude do guitarrista recuperou o sentido original da canção, composta em 1978 por Renato como um protesto contra a ditadura.[1] Portanto, não há nada mais incoerente do que ela ser cantada em manifestações políticas que aceitam a presença de grupos saudosos da presença dos militares no poder. A saber, os nomes dos milicos apontados são: José Antonio Nogueira Belham, Rubens Paim Sampaio, Jurandyr Ochsendorf e Souza, Jacy Ochsendorf e Souza e Raymundo Ronaldo Campos.

Os torturadores e assassinos da ditadura foram apropriadamente chamados de “facínoras” por Dado. Vale lembrar que a contundência política é uma marca da obra da Legião Urbana. O guitarrista não se furtou à abordagem mais engajada, e assim garantiu para o show mais uma coerência histórica em relação à trajetória da banda. Não há como negar que a inclusão de “Teatro dos Vampiros” e “Perfeição” no segundo bloco tenha preparado o terreno para o tom militante. O seu público conhece bem essa realidade e, não por acaso, havia um jovem enrolado a uma bandeira que trazia a seguinte mensagem: “Legião Urbana, o futuro do país”.

Mesmo uma passagem que poderia ser tratada como destoante, a interpretação vocal moderada de Dado e Bonfá para “Tempo Perdido” (uma canção icônica e interpretada com emoção e dramaticidade por Renato), é compensada pela sensação de cumplicidade entre a dupla e os fãs. A força da marca Legião Urbana se mantém intacta, e os integrantes remanescentes mostraram que são capazes de promover um show memorável para os seus milhares de seguidores – como costumavam fazer nas décadas de 1980 e 1990.

[1] MATTOS, Romulo. “Que país é este”: a dupla historicidade de uma canção engajada do rock brasileiro. Blog Junho, 28 de junho de 2015. http://bit.ly/1kYRjVf