Ilustração de Mácia Teixeira
Ilustração de Mácia Teixeira

Sobre moral, espontaneísmo e puritanismo em um texto de Nahuel Moreno

Henrique Carneiro

Em 1969, o dirigente político da esquerda trotskista argentina Nahuel Moreno escreveu um texto interno sobre moral para o seu partido que recebeu o título de “Moral bolche ou espontaneísta?”. É talvez o único texto dele dedicado ao aspecto moral da rebelião social do ano anterior ao texto, 1968.[1]

Apesar de anacrônico e de não ter sido republicado depois na Argentina, pois o próprio Moreno evoluíra em suas posições puritanas e homofóbicas anteriores, a Convergência Socialista resolveu traduzi-lo no Brasil e publicá-lo como o Caderno de Formação n. 8, em abril de 1987, dois meses após a morte de Moreno! Escrevi na época uma crítica que publico agora revisada e sintetizada, pois parece haver muitos que ainda reivindicam esse texto como correto.

O texto de Moreno pretende reafirmar a dicotomia entre o que chama de uma ética espontaneísta e uma da luta organizada como algo objetivamente existente de forma excludente.

Ao invés de reconhecer nessas duas atitudes morais os polos limitados e complementares de um mesmo espírito revolucionário que na década de 1960 tomou as formas culturais na juventude do guevarismo e da contracultura combinados, ambos constitutivos de uma formação moral anti-capitalista e anti-clerical, o texto em questão toma a defesa da moral guerrilheira como paradigma da moral revolucionária. Reivindica uma moral monolítica e severa e não tem nenhum pudor em justificar o fuzilamento para os que façam pregação espontaneista em guerrilhas[2]. Também considera a coisa mais natural do mundo a proibição de relações sexuais na guerrilha ser tomada como um exemplo moral para a militância: “podem se passar anos sem ter relações sexuais”. Identifica, assim, os espontaneístas com a traição e a falta de resistência e aos puritanos a honra da resistência implacável à tortura. Ao qualificar os homossexuais, os consumidores de drogas, os não monogâmicos e até os gulosos com esse espontaneísmo, os qualifica a todos como frouxos diante da repressão[3].

Afirma que “os companheiros que captamos, são, principalmente, estudantes, veem de uma sociedade em falência, repugnante, com pais separados ou que traem um ao outro, com amigos ou conhecidos que relatam orgias sexuais reais ou imaginárias, com filmes que se divertem em descrever todas as variantes de perversão sexual, com a leitura diária sobre a quantidade de maconha ou ácido lisérgico que consome a juventude norteamericana ou europeia (…) com pederastas ou lésbicas (…) com uma frieza entre os sexos nos países avançados, onde se está produzindo a liberação da mulher, que preocupa aos sociólogos, com a pílula como elemento fundamental na liberação da mulher. Estes companheiros chegam ao partido vindos de uma sociedade totalmente corrompida, sem valores de nenhuma espécie, onde a família, a amizade e as relações entre os sexos estão totalmente em crise”.[4]

Considerar como síntese da sociedade “corrompida, falida, sem valores de nenhuma espécie” a existência de divórcios, orgias, pederastas, lésbicas e “uma frieza entre os sexos nos países avançados, onde se está produzindo a liberação da mulher”, “que preocupa aos sociólogos” (?!?) é evidentemente um viés tão cheio de preconceitos homofóbicos e sexistas que creio ser desnecessário argumentar para demonstrar. O texto o faz por si só.

Filósofos marxistas como Theodor Adorno e Max Horkheimer já haviam denunciado na tradição da esquerda exatamente esta concepção que separa a disciplina da liberdade ao escreverem que: “na organização e comunidade dos combatentes aparece, apesar de toda a disciplina baseada na necessidade de se impor, algo da liberdade e espontaneidade do futuro. Onde a unidade entre disciplina e espontaneidade desapareceu, o movimento se transformou num assunto para a sua própria burocracia, um espetáculo que já entrou para o repertório da história recente”[5].

Mas, em Moreno, a moral espontaneísta é identificada ao lumpesinato, no qual a pequena burguesia em crise iria buscar um modelo moral. A tese do texto de Moreno é de que, de acordo com a interpretação de Oscar Lewis, existem duas morais burguesas: “uma a da acumulação primitiva, outra a da burguesia no seu apogeu”. Na primeira, prevaleceria o futuro e, portanto, o sacrifício do presente. Na segunda, “produz-se um bastardo equilíbrio entre o futuro e o presente, sem renegar do futuro”. A moral dos lumpens, para Lewis, se manifestaria no que ele chama de “cultura da pobreza”, em que o gozo do momento presente substitui qualquer cálculo de sacrifício em prol do futuro.

A primeira moral burguesa seria a “tremenda moral” de Calvino ou Savonarola. A segunda se refletiria na entrada em moda da psicanálise que tenderia a justificar ou explicar o “espontâneo”: “a psicanálise fica na moda nos anos [19]20, principalmente nos Estados Unidos. Todo o espontâneo e as necessidades biológicas encontram justificação e explicação na psicanálise”.[6]

Esse gozo do presente e do imediato é sinônimo no texto, de amoralismo e abandono de toda perspectiva para o futuro. Essa teoria se aplica não só à época burguesa, mas também à Antiguidade onde se oporia uma moral ascendente dos “primeiros cristãos” à moral decadente do Império Romano.

O erro começa na análise da Antiguidade, ao não perceber que “os primeiros cristãos”, especialmente Paulo, que foi pregar entre os romanos, só puderam vencer porque a sua moral era a que servia para um Império em decadência, ameaçado por invasões e revoltas de escravos e que precisava de uma moral de sacrifício. Nada melhor que a moral cristã do pecado original e da culpa, que venceu e sufocou o paganismo.

Na época burguesa, desde a época da acumulação primitiva, além do espírito puritano também já surgia uma moral de gozo plebeu em oposição à moral mercantil e usurária do lucro e da contenção. O renascimento quinhentista já trazia esse germe no epicurismo retomado em Gassendi, Montaigne, Rabelais, ou mesmo em Erasmo, e que também se manifestou de uma forma prática nas revoltas dos camponeses anabatistas.

Marx, desde o início de sua obra, denunciava a economia política burguesa como “uma ciência moral, a mais moral das ciências. A auto-renúncia, a renúncia à vida e a todo o carecimento humano é seu dogma fundamental (…) A ciência do ascetismo”[7].

Embora a burguesia possa gozar do luxo, sua ideologia formadora tão bem expressa no calvinismo é a da austeridade, para si mesma e, sobretudo, para as massas trabalhadoras.

Para Moreno, essa “tremenda moral” calvinista original foi substituída, na burguesia decadente, por uma “sombra rebelde” que seria a “moral lumpen”, ou seja, a do gozo espontâneo e imediato do presente por parte dos despossuídos. Essa moral lumpen teria um reflexo intelectual no pós-guerra, primeiro no existencialismo e, depois, com a transposição das categorias individualistas do existencialismo para um âmbito coletivo, no espontaneísmo de 1968.

Embora identifique um aspecto político progressivo nesse espontaneísmo sessenta-e-oitista, esse existencialismo de massas, no seu repúdio aos velhos aparatos traidores do movimento de massas, o texto ataca o espontaneísmo no terreno moral. Qualifica o espontaneísmo radical como “ultra-liberalismo burguês”, lembrando Lênin, que teria dito ser o anarquismo um “liberalismo à 40 graus de febre”. E dá como prova disso o fato de que o programa do Partido Conservador inglês em 1969 incluía reivindicações liberais como “a liberdade de expressão sexual e liberdade de tomar drogas”. Compara essa moral, que em 1968 teve um auge, com o existencialismo sartreano e o surrealismo (que no texto brasileiro foi erradamente traduzido às vezes como sub-realismo), aos quais chama de avós da rebelião espontaneísta de 1968.

Contra essa moral espontaneísta é defendida a “severa” moral guerrilheira, que permite (ou exige?) que se fuzile o “canalha que fizer espontaneísmo moral na guerrilha”, pois “todos os desejos são subordinados pelas necessidades da luta guerrilheira” e “podem se passar anos sem ter relações sexuais, acossados na montanha”.

Embora o texto reconheça que “há às vezes uma linha sectária nessa moral, há reminiscências de puritanismo”, fica clara a defesa quase incondicional dessa moral.

Parece incrível que entre trotskistas não se perceba que o sacrifício de todos os desejos à guerrilha é a mesma lógica que leva ao sacrifício da democracia socialista por causa de supostas razões militares, que é o que levou a praticamente todas as guerrilhas a serem “partidos-exércitos”, onde não existe a democracia operária ou socialista.

Na época em que foi escrito já se conhecia a repressão do estado cubano contra homossexuais e dissidentes. Alguns anos depois, em 1975, o poeta salvadorenho Roque Dalton foi de fato fuzilado pela guerrilha do Exército Revolucionário do Povo.

Embora analise os movimentos guerrilheiros e espontaneístas da década de 1960 como o fruto respectivo das lutas sociais latino-americanas e europeias, o texto não conclui que a base social distinta de cada um desses processos, de um lado camponesa e anti-imperialista, e de outro, juvenil, urbana e anticapitalista, dava-lhes características diferenciadas, positivas e negativas, e que ao invés de opô-los por um eixo moral, havia era que buscar sintetizar os aspectos progressivos singulares de cada um na busca de uma unidade entre os movimentos operários, camponeses e estudantis com o feminismo, os direitos dos homossexuais ou dos usuários de drogas.

Outro aspecto do texto é sua defesa de uma intervenção do partido sobre a vida pessoal e amorosa na defesa de uma “estrutura monogâmica”. Para Moreno, “a parceria é o ideal como moral e estrutura interpessoal”, por isso, “deve se evitar a promiscuidade antes de começar uma relação” e “o partido deve defender com todas as suas forças casais que vão se construindo e fazendo pressão pela via do convencimento moral, da necessidade destas parcerias”.

Curiosamente, Moreno não se refere aos textos de uma das únicas mulheres da direção bolchevique, Alexandra Kollontai, que já havia abordado esses assuntos com uma visão bem diferente em textos como Teses sobre a moralidade comunista na esfera das relações maritais (1921) e As relações sexuais e a luta de classes (1921). Nessas obras, que tem, em minha opinião, muitas coisas questionáveis, há, no entanto uma clara condenação ao princípio da possessividade e do ciúme como atitudes contrárias à moralidade comunista (“Uma atitude ciumenta e possessiva com a pessoa amada deve ser substituída por uma compreensão camarada do outro e a aceitação da sua liberdade. Ciúme é uma força destrutiva que a moralidade comunista não pode aprovar”)[8].

Ao invés das concepções de “camaradagem sexual” que Kollontai teorizara em 1921, o partido, para Moreno, deveria policiar as relações e coibir o adultério, que passa a ser visto como uma “traição moral” ao partido. A infidelidade conjugal transforma-se em infidelidade ao partido.

O texto conclui reafirmando sua dicotomia, apresentando as alternativas exclusivas de duas morais alternativas, “uma moral para a liberdade e o gozo ou (uma moral) da necessidade da revolução”.

Sabemos que a militância pode implicar em uma série de sacrifícios que em situações extremas pode chegar à prisão, à tortura e à própria morte. Saber que “há pouco tempo para o gozo e que este tem que ser conseguido como em uma cidade sitiada por um inimigo implacável” não pode significar, porém, que devamos, a exemplo dos jesuítas, adotar um voto de castidade ou fazer a exaltação da indiferença à dor ou ao prazer e nem muito menos sacrificarmo-nos dos poucos prazeres que ainda nos são possíveis. Isso não ajuda a construir militantes revolucionários, mas no máximo monges estoicos, distantes das massas e mergulhados numa moral de ascese, que pode servir para organizar uma guerrilha autoritária e burocrática, mas não para organizar um partido que atraia a juventude trabalhadora.

Se podemos chegar a fazer greve de fome quando necessário, não devemos comer mal quando não é preciso nem inevitável a privação.

O texto em questão que venho criticando é um texto datado, voltado para um contexto específico de ditadura militar e militância clandestina na Argentina de 1969 que, volto a dizer, o próprio Moreno não reivindicava na sua íntegra. A sua moral puritana, no entanto, diz respeito a um regime de partido que se espelha no modelo guerrilheiro, criticado politicamente, mas exaltado moralmente.

Esse texto é expressão de uma época em que a maior parte da esquerda, incluindo a corrente morenista, não incorporava ainda a defesa dos direitos homossexuais, não questionava a guerra às drogas, e propunha uma intervenção partidária na regulação normativa da vida privada e sexual dos militantes. É um texto sem densidade teórica, superficial em termos históricos e filosóficos, com referências caricatas à psicanálise e com um tom ultra-sectário na desqualificação insultuosa dos camaradas do próprio partido que tinham posição divergente (chamados de “canalhas”, “porcos”, com “moral de chiqueiro”).

Apesar de defender uma política severa de fiscalização dos casos extra-conjugais no interior do partido, relata sem referências de fontes, que Lênin teria tido casos com suas “ajudantes” e que a capitulação de sua esposa Krupskaia à Stálin teria se dado pela ameaça deste em revelar os casos de Lênin!

A decisão de traduzi-lo ao português e publicá-lo, dois meses após a morte de Moreno, mostra que havia dirigentes no Brasil em 1987 que queriam ser mais morenistas que o próprio Moreno. Continuar a defender esse texto hoje em dia como um “guia moral” já é falta de qualquer perspectiva histórica sobre o significado das lutas sociais e culturais de 1968.

Notas

[1] Nahuel Moreno. Moral bolche ou espontaneísta. Caderno de Formação, n. 8, 1987. O texto pode ser consultado em: http://bit.ly/2bGcQ3T

[2] “O canalha que andasse fazendo espontaneísmo moral, que dissesse ou fizesse as monstruosidades que me escreveram, na guerrilha certamente seria fuzilado” (idem, p. 27).

[3] “Os companheiros que assumem essa moral, do gozo, que pode ser sexual ou alimentar, também demonstrarão diante da própria polícia seu amoralismo, sua moral de porcos e a falta de uma moral revolucionária”, Idem, p. 49.

[4] Idem, p. 9.

[5] Theodor Adorno e Max Horkheimer, Teoria tradicional e teoria crítica, Os Pensadores XLVIII , São Paulo, Abril Cultural, 1975, p.145.

[6] Nahuel Moreno. Op. cit., p. 18.

[7] Karl Marx, Manuscritos econômicos-filosóficos, São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 18.

[8] “Uma atitude ciumenta e possessiva com relação à pessoa amada deve ser substituída por uma compreensão camarada do outro e a aceitação de sua liberdade. Ciúmes são uma força destrutiva que uma moralidade comunista não pode aceitar”. Kollontai, Alexandra. Theses on Communist Morality in the Sphere of Marital Relations. 1921. Disponível em: http://bit.ly/YWwvCE