Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Sobre o trabalho teórico

Alvaro Bianchi

“Mas, meu senhor, afinal, decifrar a Bíblia é da competência dos teólogos da Santa Igreja, ou não?” (Bertold Brecht, A vida de Galileu.)

Para um marxismo que se deseja profano a teoria não pode estar subordinada à prática. A sujeição aos ditames da prática implicou sempre na instrumentalização e no empobrecimento de todo conhecimento. Transformada em uma ferramenta para uso imediato a teoria rapidamente se converte em justificativa de ações políticas particulares. Heterônoma, ela é um instrumento dócil da nomenklatura partidária. Para o secretário-geral, a teoria justa é aquela que justifica seu predomínio no aparelho político.

A autonomia da teoria é decorrência da discordância dos tempos da investigação e da ação. O tempo da ação política é veloz e em certos momentos sofre aceleração ainda maior. Nos momentos de crise todo minuto é importante. A política não é paciente. Ela tem seu calendário e seu próprio relógio. Tic Tac, Tic Tac, cantam os manifestantes antiausteridade na Espanha anunciando a hora da revolta. Ciente de que o tempo da política passa rápido Niccolò Machiavelli afirmava que o governante de virtù agia “de acordo com as particularidades do tempo”. Sempre que comparou príncipes impetuosos àqueles circunspectos, o secretário florentino manifestou sua simpatia pelo primeiros, por aqueles que agiam decididamente quando necessário. Perdido o tempo, este não volta. A oportunidade não se oferece duas vezes às mesmas pessoas.

Mas o tempo da teoria não é o tempo da política. A teoria exige paciência, prudência e circunspecção. Ela não se submete a calendários e recusa-se obstinadamente a olhar para o relógio. O tempo da teoria é lento. Alguns problemas de pesquisa se revelam mais teimosos do que se imaginava, esgotando energias individuais e coletivas. Outros nascem inesperadamente da própria investigação e aparecem como obstáculos incontornáveis que precisam ser removidos para que esta avance. O percurso teórico nunca é, portanto, linear e homogêneo. O caminho é acidentado e arriscado, escandido e entrecortado pelos próprios problemas de pesquisa. Nada garante que se chegará ao destino final. Às vezes  é necessário abandonar sendeiros percorridos por longo tempo e, simplesmente, aceitar começar de novo.

A relação teoria-prática não é, portanto, uma relação hierárquica de subjugação e subordinação. A teoria traduz a experiência prática em conceitos que, por sua vez, permitem uma compreensão mais nítida e efetiva tornando a experiência coletiva mais rica. Repetidamente afirmou-se que a teoria é um “guia para a ação”. Mas a metáfora pode ser mal interpretada. A teoria não é um roteiro ou um manual para a ação. Também  não é uma coleira ou um arreio para prática política. A teoria é uma bússola. Ela permite que nos orientemos no mundo contemporâneo, nos diz de onde viemos e aonde estamos indo. Para cumprir seu papel de bússola a teoria precisa ter sua autonomia preservada.

Para a teoria-justificativa tudo é mais fácil. Ela não tem verdadeiros problemas de investigação, apenas certezas que precisam ser comprovadas com o uso de dados selecionados arbitrariamente, citações descontextualizadas ou, simplesmente, argumentos de autoridade. Se a pesquisa científica e filosófica não atende aos desejos do secretário-geral, pior para o conhecimento. Quando os historiadores soviéticos se depararam com a realidade histórica do modo de produção asiático e revelaram que suas formas despóticas estavam assentadas na propriedade comum da terra, Stálin rapidamente identificou-se com os déspotas orientais e para evitar o constrangimento suprimiu essas pesquisas com um decreto governamental. Foi também por meio de um decreto que se declarou encerrada na União Soviética a polêmica filosófica entre os “dialéticos”, representados por Abraham Deborin, e “mecanicistas”, alinhados com Lyubov Akselrod e Nicolai Bukharin. No lugar da investigação filosófica, as duras leis do materialismo dialético codificadas por Stálin.

A prática teórica do marxismo profano distingue-se daquela das teorias-justificativas. Para um pensamento crítico nenhum dogma, nenhuma doutrina está a salvo da crítica teórica, nenhum resultado está previamente definido. O marxismo profano quer ser surpreendido, ama a incerteza e assume os riscos de sua prática. Por isso considera sempre necessário um conhecimento rigoroso, de primeira mão e não por meio de fontes secundárias, daquilo que deseja criticar. Procura sempre os argumentos mais fortes, as linhas teóricas mais destacadas, as exposições mais rigorosas, mesmo as de seus antagonistas. Na prática política, enfrentar os adversários em seus pontos mais fracos é sinal de inteligência. Na prática teórica o mesmo procedimento é ineficaz. Ele pode ser útil para jogos verbais perante audiências desinformadas, mas apenas serve para impressionar os incautos.

As teorias-justificativas dão pouca importância às fontes da investigação. Seus proponentes já sabem o que fingem pesquisar. Nada pode perturbar as certezas já estabelecidas. Por isso, ao invés da paciente pesquisa das obras mais importantes, dos artigos e documentos originais apelam para os manuais, as coleções de citações e os comentadores que simplificam os argumentos e os apresentam sinteticamente para aqueles que têm pressa ou preguiça. Quando o objetivo é simplesmente justificar, a qualidade das edições não tem importância; a leitura nos idiomas originais ou a busca de boas traduções, também não. A documentação rigorosa do trabalho de pesquisa, com a indicação exata das fonte citadas passa a ser irrelevante quando o que se quer é simplesmente corroborar uma verdade previamente estabelecida. As teorias-justificativas ao mesmo tempo em que confirmam o que já sabiam ocultam as pistas para impedir que o embuste seja revelado.

O marxismo profano precisa de liberdade. Ele não sobrevive no conforto das máquinas políticas nas quais prevalecem o sindicalismo ou o eleitoralismo. Orientadas pela pequena política essas máquinas afogam o pensamento crítico no córrego de seus interesses imediatos. Os aparelhos sindicais e eleitorais têm seus próprio ritmos e suas exigências, seus calendários e seus relógios. Seus agentes estão convencidos de que a teoria é serva da prática e deles próprios. Consideram que toda ideia dissonante, toda voz desafinada é um atentado contra a harmonia do aparelho e a autoridade dos regentes. Sentem-se ameaçados. Sem ter como contrapor ideias a ideias, opõem ao pensamento crítico a força da máquina.

Para permanecer na máquina Georgy Lukács precisou aceitar o destino de Galileu e abjurar. Suprimidas as ideias desconfortáveis os chefes do comunismo húngaro  puderam, tranquilamente, voltar aos dogmas e às doutrinas teológicas. Na Alemanha, seu contemporâneo, Karl Korsh, se recusou a dobrar a espinha e fora do partido foi condenado ao isolamento e à marginalidade.

O marxismo profano precisa de ar fresco para respirar. A liberdade que a teoria precisa é a do publico confronto de ideias. Mas isso implica, também reconhecer que o confronto de ideias também tem regras próprias. A metáfora militar não tem aqui a menor utilidade. A teoria não é a continuação da guerra por outros meios. Somente por meio de uma prática intelectual adequada, da pesquisa rigorosa e da paciente discussão a teoria pode libertar-se das exigências da política imediata e converter-se em um guia para a ação estratégica. Livre de calendários e relógios, de regulamentos e restrições a teoria poderia reencontrar-se com a prática emancipadora, não para subjuga-la ou submeter-se, mas para caminharem juntas.