Escultura de Maria Ines di Bella
Escultura de Maria Ines di Bella

Sufragistas: classe, gênero e política

Sean Purdy

O filme As Sufragistas, que estreou no Brasil no dia 24 de dezembro, tem sido muito elogiado pela crítica e amplamente discutido por militantes dos movimentos sociais. Conta a história inspiradora do movimento pelo direito de voto das mulheres no Reino Unido antes da Primeira Guerra Mundial. Destaca uma luta histórica contra opressão e injustiça que é muito bem-vinda para uma nova audiência de militantes feministas e socialistas. Diferentemente da narrativa convencional na memória coletiva do movimento sufragista que só foca no papel das líderes da classe média e alta, esse filme começa com a declaração que vai contar a história de “algumas trabalhadoras” do movimento.

De fato, o filme foca nas histórias pessoais e políticas de Violet e Maud, duas trabalhadoras numa grande lavandaria que enfrentam diariamente a exploração capitalista e o extremo machismo da sociedade na época. Sofrendo de dias longos de trabalho duro por salários menores de que os dos homens na lavanderia, elas também encaram assédio sexual no lugar do trabalho, além do abuso e do tratamento machista dos seus maridos. Militante experiente do movimento sufragista, Violet recruta Maud para luta e ela começa a ver a centralidade de direitos políticos iguais para mulheres como uma saída da exploração e opressão da vida dela.

O filme mostra cenas inspiradoras da luta do movimento no período: desobediência civil, atos de sabotagem, greves de fome na prisão e grandes passeatas. Atacando o mito do bobby (policial inglês) bonzinho, revela a extrema brutalidade da polícia contra as militantes e a determinação do governo e da polícia para esmagar o movimento. Perdendo a custódia do seu filho por causa da sua militância e sujeita ao tratamento violento da polícia, Maud continua lutando corajosamente no movimento.

Sem ser didático demais e oferecendo uma alternativa política à vasta maioria de filmes de grande porte, a diretora Sarah Gavron merece elogios por seu retrato dessa importante história da luta pelos direitos de mulheres. Todos os militantes dos movimentos feminista e operário deveriam ver esse filme.

Porém, o filme falha em dois aspectos chaves: sua representação das políticas do movimento e seus laços com os movimentos operário e socialista da época. Apesar do foco no enredo em algumas mulheres trabalhadoras, o filme não desafia suficientemente o mito que o movimento era somente de mulheres da classe média e alta

A grande inquietação

O movimento sufragista no Reino Unido nesse período não era um movimento homogêneo, mas consistia de várias correntes com políticas distintas. As duas organizações centrais no movimento eram o Sindicato Nacional de Sociedades de Sufrágio para Mulheres (NUWSS) e o Sindicato Social e Político de Mulheres (WSPU). A última, liderada de cima por Emmeline Pankhurst (retratada no filme por Meryl Streep) e sua filha Christabel, é a única organização retratada no filme. Porém, houve outras influências no movimento de organizações de mulheres sindicalistas, socialistas e do Partido Trabalhista Independente, o predecessor do Partido Trabalhista. A NUWSS preocupava-se mais com o movimento sindical e operário e tentava construir um movimento de toda a classe trabalhadora. Outra filha de Emmeline, Sylvia Pankhurst, era organizadora no movimento sindical e formou a Federação de Mulheres do Leste de Londres que também militava pelo direito de sufrágio para mulheres.[1]

Mulheres da indústria têxtil no norte de Inglaterra formavam o movimento mais radical pelo direito de voto. Para elas, Judith Orr argumenta, “a luta pelo voto era inseparável da luta contra os patrões”.[2] Alice Milne, uma trabalhadora que apoiava o movimento, relatou seu desconforto quando ela visitou o escritório do WPSU em 1906. Para ela, o lugar “estava cheio de mulheres respeitáveis vestidas com cetim e seda”. Selina Cooper, uma trabalhadora na indústria têxtil desde os sete anos de idade, fazia campanhas no noroeste da Inglaterra para convencer os sindicatos a apoiar a luta sufragista. Numa reunião pública em 1906, ela declarou que mulheres trabalhadoras tinham seus próprios objetivos no movimento, combinando a luta pelos direitos políticos e pelos direitos sociais e econômicos.

O WSPU certamente usava táticas radicais como escrachos de reuniões políticas dos partidos do governo, desobediência civil, greves de fome e atos individuais de sabotagem e era a face mais destacada do movimento nos jornais e subsequentemente por historiadores. As táticas eram frequentemente criativas e imaginativas. A intransigência do governo, a brutalidade da polícia, a falta de pleno apoio do movimento operário oficial e o aparente radicalismo da WSPU influenciaram trabalhadoras a aderir tal organização, mesmo que liderada por mulheres ricas. Mulheres da classe trabalhadora, média e alta, como o filme mostra, organizavam juntas nessas organizações, mas a questão de diferenças de classe nunca era ausente.

As táticas mais espetaculares eram atos individuais feitos por poucas mulheres e alienaram muitas militantes da classe trabalhadora que queriam construir uma base das massas de mulheres e homens da classe trabalhadora. Muitas trabalhadoras não podiam arriscar ir à prisão por sabotagem, etc. Mas, Emmeline e Christabel Pankhurst argumentavam que a única luta era “votos para mulheres”. O filme mostra um pouco disso, mas não desenvolve o tema quando, por exemplo, Maud e outras trabalhadoras foram liberados da prisão e não foram recebidas por ninguém. Sabemos, no entanto, que as militantes ricas celebraram sua liberdade da prisão em banquetes em hotéis de luxo. Quem sofria muito mais eram trabalhadoras sem maridos influentes ou dinheiro para pagar fianças. Essa divisão de classe é também mostrada no filme, mas não desenvolvida pela diretora, quando a filha de Violet é resgatada do abuso sexual do seu patrão na lavanderia através de Maud que lhe arruma um novo trabalho como empregada doméstica de uma rica sufragista.

Em 1907, o WPSU cortou todos os laços oficiais com o movimento operário. Segundo Christabel, os governantes “eram mais impressionados com mulheres da burguesia que as do proletariado”.[3] A organização de Sylvia Pankhurst foi expulsa do WSPU por causa do seu foco na luta da classe trabalhadora como um todo. Enquanto o WSPU continuava fazendo atos individuais e, ocasionalmente, grandes manifestações, as outras organizações continuavam organizando trabalhadores homens e mulheres para a conquista de direitos políticos para mulheres.

Não é surpresa que justamente no período de lutas militantes pelo sufrágio retratados no filme, 1912-1923, surgiu uma onda de lutas da classe trabalhadora conhecida como “A Grande Inquietação”. Membros de sindicatos duplicaram no Reino Unido entre 1910-1913 e houve grandes conflitos industriais nas minas, nas ferrovias, no setor de transporte, na construção e até nas lavanderias tais como o lugar de trabalho de Violet e Maud mostrado no filme. A popularidade do movimento pelo sufrágio e sua grande repercussão na imprensa ocorreu no mesmo período do aumento das lutas de classe no país.[4] A brutalidade da polícia e a intransigência dos governantes não foram a toa: o governo temia que o movimento sufragista se ampliasse e se conectasse com as lutas mais amplas do movimento operário.

Resistência dos sindicatos oficiais

No entanto, o fato é que o movimento operário e socialista oficial da época era equivocado na questão do direito do voto para mulheres. Alguns sindicalistas e políticos socialistas expressaram ideias extremamente machistas, argumentando que mulheres eram primariamente mães e donas de casa. Até os mais simpáticos ao movimento temiam que a luta fosse meramente burguesa e que arriscasse desviar a luta pelos direitos de todos os trabalhadores.[5] Afinal, nem todos os homens tinham o voto na época e a principal pauta discutido pelo WSPU era direito de voto somente para mulheres com mais de trinta anos que também possuíam propriedade (justamente o direito limitado cedido pelo governo em 1918). Apesar da importância de enfatizar a questão de classe, era um grande erro dos partidos socialistas e sindicatos não apoiarem plenamente os direitos políticos de todas as mulheres. Aliás, foram os esforços das militantes do NUWSS mais orientadas por ideias e práticas classistas que convenceram muitos sindicatos e o Partido Trabalhista Independente a apoiarem plenamente a demanda pelo sufrágio das mulheres.

Essa questão de classe e política é bem ilustrada pelas trajetórias de algumas das lideranças do movimento sufragista. Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, o WPSU de Emmeline e Christabel Pankhurst capitulou ao patriotismo xenófobo da Inglaterra, suspendendo a luta pelo sufrágio e mudando o nome do jornal do movimento para Britannia. Nos anos 1920, Emmeline Pankhurst, preocupada com a influência do bolchevismo, afiliou-se ao Partido Conservador e ela e Christabel uniram-se às organizações reacionárias contra a Greve Geral de 1927 no Reino Unido. Outra filha, Adela Pankhurst, mudou-se para Austrália onde militou em políticas fascistas.

Porém, a Sylvia Pankhurst era uma das militantes do movimento sufragista que também era socialista convicta. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, ela fundou a Federação de Trabalhadores Socialistas cujo escritório sediou a primeira reunião do Partido Comunista Britânico. Ela foi muito inspirada pela Revolução Russa que conquistou não só direitos políticos para mulheres, mas plenos direitos sociais e econômicos.[6] Ela acabou saindo do PC, seguindo o “comunismo da esquerda” de Anton Pannekoek. Sylvia foi afastada da família permanentemente por sua mãe porque se recusou a se casar oficialmente com seu companheiro, um anarquista italiano com quem ela teve um filho. Mais tarde se dedicou à luta antifascista e anticolonial, ficando a última parte da vida dela na Etiópia, lugar onde morreu em 1960.[7] No filme, Sylvia é mencionada somente uma vez e de forma negativa, como oponente das táticas militantes da sua mãe. Ela, tal como os outras milhares de trabalhadoras do movimento pelo sufrágio, é quase completamente ignorada.

Apesar de uma perspectiva simplista de classe e pouco contexto histórico, o filme vale muito a pena ser visto pois destaca uma luta histórica e inspiradora contra opressão. Para militantes hoje em dia, provoca debates sobre como mulheres ganharam direitos políticos e como a luta continua contra todas as formas de opressão de mulheres.

Notas

[1] ELEY, Geoff. Forjando a Democracia: a História da Esquerda na Europa, 1850-2000. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005.

[2] ORR Judith. Suffragette: The Revolt that Won the Vote. Socialist Worker, 13 out. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1kxx28J

[3] Ibid.

[4] HARMAN, Chris. A People’s History of the World: From the Stone Age to the New Millenium. London: Bookmarks, 2008. Para lutas populares em geral nesse período ver GERMAN, Lindsey; REES, John. A People’s History of London. London: Verso, 2012.

[5] Sobre essa posição da esquerda europeia, ver ELEY, Geoff. Op. cit.

[6] GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução: política da família Soviética e da vida social entre 1917 e 1936. São Paulo: Boitempo, 2014.

[7] CONNELLY, Katherine. Sylvia Pankhurst: Suffragette, Socialist and Scourge of Empire. London: Pluto 2013. Também ver ROWBOTHAM, Sheila. Hidden From History: 300 years of Women’s Oppression and the Fight Against It. London: Pluto Press, 1992.