Ilustração de Mácia Teixeira

Aquarius: o filme-edifício e a experiência de habitar

Victor Vigneron Imagem em movimento ou mobilização do olhar? Não é incomum que um comentário crítico seja precedido da definição de seu escopo, um prospecto onde o autor apresenta seus princípios. Mas o que poderia servir como explicitação de um itinerário possível muitas vezes reivindica estatuto de exclusividade: cinema é isto, aquilo está fora. No caso de Aquarius (2016, Kleber Mendonça Filho), essa tendência reage à mobilização política do filme, cuja manifestação...

Ilustração de Marlon Anjos

A memória tem o tamanho de um botão

 Victor Vigneron O que há de novo em O botão de pérola [El botón de nácar, 2015], o novo filme de Patricio Guzmán? A questão é de tal modo repisada que por vezes nos esquecemos de observá-la. Nos limites da filmografia do diretor a pergunta se dá com a teia que liga suas diferentes obras. Assim, a conhecida trilogia A batalha do Chile [La batalla de Chile, 1975-1979], seria evocada décadas depois em Chile, a memória obstinada [Chile, la memoria obstinada, 1997]; O caso Pinochet [Le...

Ilustração de Oadilos

Mãe só uma (nenhuma, cem mil)

  Daniela Mussi Os ingressos são caros, os bons filmes não raro duram poucos dias em cartaz e seus horários são ruins. As salas mofadas alternativas, com suas pequenas poltronas de veludo vermelho, quase não existem mais. As salas de cinema sobrantes se renderam aos shopping centers e à pirotecnia tridimensional. Justamente por isso elas não serão capazes de projetar o charme e o perfume da renovação pela qual o cinema brasileiro passa. É do italiano Francesco De Sanctis a...

Colagem de Singh Bean

Incidente no cinema

 Victor Vigneron Há quase dois anos, o Dário de Pernambuco publicou um artigo de título ambíguo: “Comédia musical funerária provoca espanto em Paulínia”. Talvez fosse óbvio para o autor do texto que só se poderia tratar do Festival Paulínia de Cinema, onde então era exibido o filme Sinfonia da Necrópole (2014, dirigido por Juliana Rojas). Mas não deixa de ser insólito imaginar o espanto de uma plateia do interior ao assistir a uma “comédia musical funerária”. E ainda...

Colagem de Singh Bean

Cemitério do esplendor: regime de restrição cromática

 Victor Vigneron Passado o famoso colapso nervoso do início de Tempos modernos (1936), Carlitos é liberado pelos médicos e agora caminha pelas ruas do bairro portuário. Embora seja distraído o suficiente para tropeçar sem razão, ele é o único na rua a perceber um discreto acontecimento. Toma a bandeira caída acidentalmente de uma caminhonete que passava por ali e com ela acena, a um só tempo, para o motorista, para a câmera e para nós. Mas Carlitos não percebe que desponta...

Ilustração D. Muste

O pacto social e estética em Que horas ela volta?

Paulo Gajanigo Um bom ator pode fazer qualquer papel, sabemos. Mas certos efeitos, muitas vezes, só são atingidos por meio de um ator específico. Por isso o diretor comemora quando acha o ator certo. Me lembro da boba polêmica sobre a escolha do casal Nicole Kidman e Tom Cruise para o filme De olhos bem fechados. Estranharam que Stanley Kubrick tenha os escolhido pois não seriam atores do universo cult que aprecia seus filmes. O diretor queria o casal, que o era na vida real, pois o filme...