Escultura de Alfi Vivern
Escultura de Alfi Vivern

Tempos difíceis

Alvaro Bianchi

A Rede Globo deu o sinal. Primeiro José Roberto Marinho reuniu-se com nove senadores petistas no dia 5 de agosto. Condenou as “maluquices” de Eduardo Cunha e garantiu que quer ver a presidenta Dilma Rousseff ocupar seu posto até o final do mandato. Dos petistas Marinho ouviu reclamações e um alerta: se mexerem com Lula tudo pode acontecer. Depois veio a nota das federações das indústrias do Rio de Janeiro e São Paulo (Firjan e Fiesp) divulgada dia 6 de agosto exigindo “responsabilidade, diálogo e ação para preservar a estabilidade institucional do Brasil”.[1]

Por último, a família Marinho deixou claro que não estava para brincadeiras e no dia 7, tornou pública sua nova posição. Pela manhã os leitores podiam ler o editorial do jornal O Globo condenando as manobras de Cunha na Câmara dos Deputados e acusando a oposição tucana de “inconsequente”.[2] À noite, o Jornal Nacional deu destaque a discurso de Dilma Rousseff rebatendo as críticas da oposição e sendo aplaudida pelo público.[3] Os blogs governistas ficaram desnorteados e não lhes restou outra coisa do que colocar na gaveta o complô antidemocrático do suposto Partido da Imprensa Golpista (PIG), para festejar seus novos aliados. Afinal, como já dizia Groucho Marx: “meus princípios são estes e se você não gostar…, bem eu tenho outros”.

No dia 10 foi a vez do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) roubar a cena em reunião com os ministros do governo Dilma apresentado uma agenda de reformas que incluem a cobrança pelo serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), a “regulamentação” das terceirizações e até mesmo a “revisão dos marcos jurídicos que regulam áreas indígenas” e “da legislação de licenciamento de investimentos na zona costeira, áreas naturais protegidas e cidades históricas”.[4]

A adesão do governo à Agenda Renan foi um ato de rendição simbólica. Para Calheiros a “agenda tem que tratar de tudo, da reforma do Estado, da coalizão, da sustentação congressual. Esse modelo político, essa coalizão, ela já se esgotou no tempo. É preciso dar fundamento ao ajuste, à agenda da retomada do crescimento, sinalizar claramente com relação ao futuro do Brasil e construir uma convergência com relação a esse futuro”.[5] Mas a tal agenda é muito genérica, não inclui muitas propostas concretas e nada indica que existirão condições para ser aprovada em um Congresso que também está acossado por denúncias de corrupção.

Se a pequena política é a arte do possível, como os conservadores gostam de afirmar, então a explicação para a Agenda não está em seu conteúdo, o qual dificilmente terá condições de sair do papel nos próximos anos. A movimentação do PMDB tem provavelmente outro propósito, o de assumir o comando da sucessão presidencial.

Compasso de espera

O calendário do ziguezague político tem sua importância. A movimentação das Organizações Globo e dos industriais cariocas e paulistas antecedeu o anúncio da Agenda Renan. Em seus editoriais O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo comemoraram a iniciativa do presidente do Congresso. Mas até o momento a Fiesp e a Firjan não se pronunciaram oficialmente sobre as propostas. A atitude que prevalece entre os empresários é a de cautela.

A agitação mesmo ficou restrita ao Congresso, onde o golpe de mão de Calheiros mudou o rumo da conversa, colocando Eduardo Cunha em uma posição defensiva. Para a burguesia de verdade o PMDB de Calheiros aparece como o um ponto de equilíbrio e moderação no Congresso, em contraposição às maluquices de Cunha e às inconsequências dos tucanos. Quem conhece o empresariado brasileiro sabe que ele não gosta de aventuras e que dá pouco valor a princípios abstratos. O que conta mesmo em seus cálculos é a estabilidade do ambiente político e econômico.[6] Vale lembrar que, em 1992, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) não apoiou as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor, nem mesmo quando boa parte da imprensa havia aderido à campanha e a opinião pública era favorável.

Cunha não é uma alternativa para a burguesia de verdade. Mas seu partido pode ser. Jogar ao mesmo tempo no time da situação e da oposição é arriscado. Cedo ou tarde O PMDB vai ter que reunificar suas hostes. A Agenda Renan foi um passo importante nessa direção. Mas para ocupar o papel de condottiero na política nacional o PMDB precisaria de uma liderança carismática que decididamente não tem. Boatos nas últimas semanas dão a entender que José Serra ou Marta Suplicy poderiam ser essas lideranças, mas até o momento a única coisa certa é que com seus atuais dirigentes o PMDB poderia repetir o fracasso eleitoral de 1989 com Ulysses Guimarães. Uma coisa é dirigir um bloco parlamentar com 151 deputados. Outra bem diferente é disputar uma eleição em um eleitorado de mais de 140 milhões de pessoas.

A situação interna do PSDB, por sua vez, é mais conturbada do que parece, como deu a entender a entrevista do superintendente do Instituto FHC, Sérgio Fausto, em O Estado de S. Paulo. Fausto teme que seu partido tenha perdido a posição de liderança natural da oposição e que a crise do PT não se traduza “automaticamente num novo ciclo vitorio do PSDB”.[7] Por um lado a derrota de Aécio em Minas Gerais nas últimas eleições enfraqueceu seu poder no partido e comprometeu uma nova candidatura presidencial. O puxão de orelhas da Rede Globo nos tucanos serviu para lembrar-lhes que não há uma liderança natural na burguesia brasileira.

As presenças de Aécio Neves e José Serra nos atos contra o governo Dilma realizados dia 16 em Belo Horizonte e José Serra são parte dessa luta. Ambos veem nas manifestações uma oportunidade para desgastar o governo e ocupar um lugar à frente da oposição de direita. Mas o PSDB não tem acordo sequer sobre a proposta de impeachment da presidenta e isso pode desgastá-los perante tais protestos.[8] Prudentemente Alkmin tem evitado aparecer nessas situações mantendo seu estilo low profile. Um imperturbável Geraldo Alkmin, com um acrescido poder na máquina partidária, pode vir a ser uma alternativa. José Serra definitivamente fora do páreo embora ele mesmo ainda não saiba disso.

O horizonte que falta

As manifestações do dia 16 não mudam em nada esse quadro. Foram menores do que os protestos precedentes, tiveram uma repercussão menor na imprensa e mais uma vez revelaram a ausência de lideranças nacionais. Mas isso não quer dizer que a situação do governo melhore. O suposto fôlego que recebeu com sua rendição a Calheiros é na verdade o hálito do moribundo. Os petistas sonham que sobrevivendo até 2018 Luiz Inácio Lula da Silva receberia mais uma vez sua chance. Mas apostar em um renascimento miraculoso daqui a três anos é pedir para perder. O ciclo petista definitivamente se encerrou.

Infelizmente, é difícil acreditar que o vazio político possa ser ocupado por uma oposição de esquerda. Ou pelo menos não poderá ser ocupado por essa que está ai. Até agora ela marcou presença com sua ausência. Encerrada nas sedes dos sindicatos e nos gabinetes parlamentares a oposição de esquerda não demonstrou até o momento nenhuma iniciativa política digna de nota a não ser algumas inócuas declarações de princípio. Achar que isso se resolve com a unidade da oposição de esquerda é uma declaração de ingenuidade. O que falta mesmo é um horizonte estratégico.

Nota

[1] FIRJAN; FIESP. Nota oficial – FIRJAN e FIESP em prol da governabilidade do país. 6 ago. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1SUKUcV

[2] Editorial: Manipulação do Congresso ultrapassa limites. O Globo, 7 ago. 2015. Disponível em: http://glo.bo/1K0lg0H

[3] Dilma diz que aguenta pressão e que tem a legitimidade do voto popular. Jornal Nacional, 7 ago. 2015. Disponível em: http://glo.bo/1DY3JVQ

[4] Senado Federal. Agenda Brasil. 12 ago. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1HQaunD

[5] Da Redação. Agenda Brasil, de Renan, quer regular terceirizações e cobrar pelo SUS. Carta Capital, 11 ago. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1IKE4g1

[6] Há exceções, é claro. A revista Veja não pode mudar sua linha editorial sob pena de perder seus cada vez mais escassos leitores, os quais encontraram na revista a expressão de seu conservadorismo. Mas mesmo neste caso a opção não deixa de ser pragmática.

[7] Sérgio Fausto. “O PSDB não mracha unido”. Entrevista. O Estado de S. Paulo, 16 ago. 2015, p. A6

[8] Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, há meses vem batendo nessa tecla, considerando essa alternativa muito arriscada. Elizabeth Lopes; Pedro Venceslau. Impeachment não pode ser tese’, diz FHC. O Estado de S. Paulo, 19 abr. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1WwMa5i