Ilustração de Adria Meira
Ilustração de Adria Meira

“Trotski: uma biografia”, de Robert Service

Kevin Murphy

(Traduzido por Marcio Lauria Monteiro e revisado por Morgana Romão).

Setenta anos após sua morte, a habilidade de Leon Trotsky em polarizar o debate acadêmico permanece incomparável. Retratado como um firme oponente da ascendente burocracia ou como não sendo melhor do que Stalin, sua vida constantemente se entrelaçou com as questões centrais que atravessaram a era revolucionária. A extensa biografia de Robert Service sobre Trotsky certamente irá reavivar a discussão.

A tese de Service (p. 2-4) é dificilmente de exclusividade sua: de que “o que Stalin, Trotsky e Lenin tinham em comum superava os seus desacordos”. Todavia, a tentativa de desmerecer a suposta “profunda marca [de Trotsky] na produção acadêmica ocidental” é nova. Suas ideias previamente a 1917 estariam “longe de serem tão originais” como ele afirmou, argumenta Service, e ele teria exagerado seu papel em 1917. Stalin não teria traído a revolução internacional, e uma URSS liderada por Trotsky não teria sido diferente, porque suas ideias e práticas “assentaram vários pilares fundamentais” do sistema stalinista. Ao invés da mediocridade burocrática retratada por Trotsky, Stalin, em última instância, o teria “superado”. Service realizou uma pesquisa extensa, mas seu livro oferece pouco em termos de novas reflexões: trata-se de um trabalho polêmico de reinterpretação ao invés de uma reformulação da imagem de Trotsky baseada em novas descobertas.

Service se propõe a diminuir Trotski, e isso é evidente em quase todas as páginas. Sua tentativa de banalizar a teoria de Trotsky da revolução permanente (p. 80) é enganosa. Trotsky reconheceu abertamente que Parvus o convenceu da necessidade de um “governo dos trabalhadores” na Rússia. Mas a sua própria formulação de 1905 foi além disso: ele argumentou que um governo dos trabalhadores necessariamente realizaria tarefas socialistas, uma posição que Parvus nunca defendeu. Não eram apenas “alguns mencheviques” (p. 94) que se sentiam atraídos por “Parvus e Trotsky”, como sugere Service; e, em 1905, Trotsky já não era mais o segundo em importância na dupla. Dan admitiu que Nachalo tornou-se mais “trotskista”, ressoando entre segmentos substanciais de trabalhadores mencheviques, enquanto Martinov se vangloriou de que apenas os socialdemocratas “corajosamente levantaram a bandeira da revolução permanente”. Mais adiante no livro (p. 181), Service reconhece que “o bolchevismo adotou silenciosamente os elementos básicos da estratégia revolucionária que [Trotsky] havia defendido desde 1905”.

O autor não desenvolve a sua afirmação de que o Presidente do Soviet de Petrogrado e líder do Comitê Revolucionário Militar inflou seu papel em 1917, provavelmente por conta da ausência de Trotsky na maior parte da sua História da Revolução Russa, que Service atribui à técnica retórica do distanciamento (p. 401). O mais próximo que obtemos é um punhado de anedotas infelizes. A posterior declaração de Trotsky, de que os bolcheviques e os interdistritais estavam “sondando” a possibilidade de tomar o poder em julho, não é a bomba que Service afirma ser (p. 175), já que nenhum plano foi realmente elaborado. As “táticas demagógicas” de Trotsky (p. 170-72) incluem discursar contra uma tentativa de fazer os soldados pagarem pelas viagens nos bondes e sugerir que o Governo Provisório estava enganando “as massas”. O discurso sobre “cabeças devem rolar”, proferido para os marinheiros de Kronstadt, é baseado nas memórias de Vladimir Woytinskii, que também incluem a afirmação de que Lenin pediu que ele se tornasse “Ministro da Guerra e Comandante Supremo”.

Com centenas de trabalhos e coleções de documentos primários sobre os anos revolucionários disponíveis para os estudiosos, Service considera necessário apoiar sua alegação de que Trotsky foi “na prática, extremamente violento” (p. 500) em um livro de memórias enganoso e em uma citação descontextualizada, da época da guerra civil. Ele afirma (p. 222) que um comandante vermelho e seus homens desertaram na batalha de Sviayashsk, mas foram pegos e “Trotsky ordenou sua execução sumária”. Em sua biografia de Stalin, Trotsky sugere que Stalin foi quem começou os rumores de que o comandante e o comissário foram fuzilados sem julgamento. Mais adiante (p. 234), um inquérito do Politburo confirma a versão de Trotsky de que não houve “execução sumária” alguma.

Alheio à profunda regressão ocorrida nas normas do partido por volta de 1923, Service ignora a falsificação das resoluções das células de Moscou e critica Trotsky (p. 311) por imprimir seu Novo Curso, afirmando que “ele jogou fora as vantagens do sigilo”. No entanto, o sigilo e a calúnia não faziam parte da agenda da Oposição de Esquerda. Service se aproxima do alvo ao sugerir (p. 4) que Trotsky acreditava que “suas opiniões, se expressas em linguagem viva, lhe trariam a vitória”, e novamente (p. 339) que Trotsky “não gostava de uma briga suja”. Isaac Deutscher e Duncan Hallas apresentaram argumentos mais convincentes sobre a inaptidão de Trotsky para uma disputa fracional, mas Service combina isso com a alegação de que (p. 320) “os métodos desonestos foram usados por ambos os lados”. Service aplaude o texto de Bukharin, Sobre a questão do trotskismo, porque revelou algumas referências de Trotsky hostis a Lenin. No entanto, Service ignora a litania de invenções de Bukharin, incluindo a acusação de que Trotsky estava no lado errado em todas as principais disputas partidárias. A questão central foi a revolução permanente de Trotsky, repentinamente tornada herética, que a Comintern havia começado a publicar em 1919. Não era apenas Lenin (p. 325) que concordava com a necessidade da revolução europeia para a conquista do socialismo; até mesmo Stalin teve que remover as referências ao tema de suas Fundações do Leninismo (maio de 1924) para se adequar à reescrita da história do partido.

Service negligencia a importância da submissão de Trotsky à disciplina do partido, alegando (p. 357) que “seus silêncios e disparates verbais de meados da década de 1920 não eram acidentais”. Sua alegação sem fontes de que Trotsky “não se incomodou com a supressão brutal do levante nacional da Geórgia em 1924” (p. 335) distorce o abismo que existia entre Trotsky e Stalin na questão das nacionalidades. Trotsky opôs-se à invasão da Geórgia em 1921 e argumentou em sua biografia de Stalin que “a sovietização prematura” levou “à ampla insurreição em massa de 1924”.

Service afirma que, em 1924 (p. 325), “Trotsky e Stalin eram rivais mortais”. Apesar desse duelo de titãs levar a uma narrativa convincente, ele sabe perfeitamente que (p. 350) “Trotsky sentiu que as ideias de Bukharin constituíam a maior ameaça para os bolcheviques”. A análise de Trotsky estava ancorada em um foco na propriedade nacionalizada e na crença de que as tendências em disputa no partido refletiam os interesses de classes na sociedade soviética: a classe trabalhadora à esquerda, os kulaks à direita, com o “centro” de Stalin vacilando entre as duas. Em última instância, essa análise levou Trotsky a subestimar o grau em que o stalinismo abraçou as aspirações de uma classe dominante nascente. Trotsky caracterizou o primeiro plano quinquenal como um “ziguezague à esquerda” e, em 1933, alertou para um movimento centrista para a direita, sob a pressão de um “perigo kulak”. Ao invés de tentar entender isso, Service sugere (p. 482) que o suposto “amor pela URSS” de Trotsky impediu uma postura mais crítica da sua parte. Tão confusa é esta seção do livro, que Service afirma na mesma página (pág. 459) que “Trotsky não viu necessidade de uma segundo [revolução]” e que “ele continuou a colocar sua fé em um levante popular”, e, na próxima página, que uma “revolução era necessária para proporcionar à União Soviética uma proteção adequada”.

Apesar de Service corretamente apontar que Stalin se apropriou de grande parte do programa da Oposição Unificada (pág. 372), não havia nada nele que remotamente apoiasse os subsequentes ataques brutais aos quais a população camponesa e trabalhadora foi submetida para pagar pela industrialização. É verdade, a promessa da Oposição de que taxar kulaks e nepmen permitiria salários crescentes ignorava a difícil questão do isolamento da revolução; mas é cínico assumir que a solução sangrenta era a única alternativa, especialmente se os nazistas tivessem sido impedidos.

Service está fora de sua alçada ao discutir a Alemanha (p. 310, 354), afirmando que não havia diferença entre as situações em 1921 e 1923, e sugerindo que Trotsky era tão culpado quanto qualquer um pela derrota de 1923. Não há menção ao movimento de comissões de fábrica, à greve geral de Berlim, à greve dos mineiros, ou aos tumultos pelo pão em muitas cidades alemãs. Em julho, quase todos os jornais, exceto o do KPD, detectaram um clima revolucionário que lembrava o de novembro de 1918, mas Service aplaude Stalin por levantar objeções sensíveis. Após dedicar partes substanciais do livro às supostas falhas de caráter de Trotsky, incluindo sua incapacidade em ter “um senso de proporção” (p. 356), Service admite, em seus dois parágrafos sobre o ascenso dos nazistas na Alemanha (p. 395), que Trotsky corretamente apontou os perigos do nazismo para “toda a esquerda política”. A estratégia de frente única de Trotsky, sequer explicitamente mencionada por Service, certamente poderia ter alterado a situação política da Europa.

O tratamento dado à revolução chinesa (p. 355) é ainda menos impressionante. A crítica de Trotsky à estratégia de “bloco das quatro classes” de Moscou dificilmente estava jogando “lama” em seus camaradas. Supostamente refutando “a afirmação da Oposição, de que Stalin e Bukharin haviam abandonado o apoio à revolução mundial”, Service afirma, incorretamente, que Moscou ordenou uma “insurreição contra Chiang Kai-shek e o Koumintang em abril de 1927”. Entretanto, a insurreição de Xangai, em março de 1927, não foi contra Chiang, mas contra os senhores da guerra, e antes da chegada das forças de Chiang, que entraram na cidade como heróis. O líder comunista de Xangai, Chen Tu-hsiu, pediu à Comintern que lhes permitisse sair do Koumintang, mas foi ordenado a entregar o poder a Chiang. Quando Chiang posteriormente matou dezenas de milhares de trabalhadores e comunistas em Xangai, em abril de 1927, ele ainda era um membro honorário do Comitê Executivo da Comintern, uma posição que Trotsky havia votado contra.

Após a seção da revolução chinesa, Service reclama que (p. 356) “poucos observadores se preocuparam em desafiar Trotsky como memorialista ou historiador”. Trotsky “gastou muito do seu tempo em disputas, e pouco em pensar”, um exercício que “envolveu uma falta de seriedade como um intelectual”. Cabe questionar se Service espera que os leitores familiarizados com o que Trotsky realmente escreveu usarão o mesmo critério de avaliação dessa biografia.

[Originalmente publicado em Revolutionary Russia, vol. 24, n. 1 (2011). A paginação é referente à edição de 2009 da Macmillan (Londres)].