Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Um estranho companheiro: Piero Gobetti, o liberal que amava os operários

 

Daniela Mussi

Em 2016, completam-se 90 anos da morte do jovem intelectual italiano Piero Gobetti (1901-1926). Praticamente desconhecido no Brasil, Gobetti tornou-se símbolo da luta contra o fascismo na Itália e, depois da Segunda Guerra Mundial, passou a ser comumente associado à figura de Antonio Gramsci nos debates sobre a democracia e o socialismo na Itália. Gramsci e Gobetti se conheceram em fina de 1918, em Turim, no imediato pós-Primeira Guerra Mundial. Neste momento, Gramsci era jornalista e ativista da “ala esquerda” do Partido Socialista Italiano. Gobetti, por outro lado, se considerava um liberal democrático e crítico do marxismo, bem como buscava estabelecer com os círculos intelectuais neoidealistas e liberistas italianos os vínculos de seu engajamento político. Apesar de um distinto ponto de partida, Gobetti viveu com muita intensidade os acontecimentos de sua época, sobre os quais pensou e procurou agir. E, em nome desta vida integral, tornou-se também obstáculo e alvo do fascismo que se erguia.

Em setembro de 1918, Piero Gobetti era um jovem saído do liceu e havia apenas ingressado na Universidade de Turim como estudante de Direito. Nascido nesta mesma cidade, Piero era filho de dois pequenos comerciantes (donos de uma farmácia) de origem camponesa,[1] o “jovem alto e magro”, “narigudo”, de “cabelos emaranhados” e roupas desengonçadas. No momento mesmo em que ingressou na Universidade, Gobetti já mantinha uma viva correspondência com outros jovens, colegas e amigos de liceu, com quem organizava a criação da revista para discutir os problemas do país. O patriotismo era uma componente forte das intenções do jovem estudante de direito, que mantinha uma relação de estreita amizade com um professor, Balbino Giuliano e, por meio dele, se aproximava dos sentimentos de “italianidade” professados pelas revistas neoidealistas L’Unità de Gaetano Salvemini e também por La Voce de Giuseppe Prezzolini (Ntbe, p.12n).[2]

Deste ideal nasceu a revista Energie Nove [Novas Energias], para “despertar movimentos de ideias e divulgar pensamentos”, que pudesse “colher a personalidade de cada escritor” e funcionar como um “sinal de despertar nesta morta Torino”[3] tomava como exemplo a experiência das revistas neoidealistas do pré-guerra, especialmente La Voce (C, p.3). Em carta enviada a Bendetto Croce, em 27 de novembro, Gobetti apresentou a intenção de que a revista recolhesse “ao redor de si as energias jovens da Itália em um trabalho sério de renovação italiana” tendo como base o “mesmo idealismo militante que animou a revista La Voce” (C, p.5).

A revista fundada por Gobetti nascia com o objetivo de promover na sociedade civil do pós-guerra “a ideia e o sentimento do renascimento da nação” (GERVASONI, 2000, p.26). Assim, Energie Nove nascia com um perfil abertamente político, no qual os argumentos de cultura deveriam estar coordenados por um fim preciso. Sua inspiração vociana e unitária, os “dois jornais mais importantes para nossas almas”, era clara (GERVASONI, 2000, p.26; GOBETTI, 1919). Em uma nota aos colaboradores da revista, Gobetti precisou:

“Publicaremos artigos sobre qualquer argumento de cultura (…). Queremos coisa viva. Advertimos que, em linhas gerais, não publicaremos a produção de arte pura. E para esta decisão contaram nossas convicções íntimas e também o olhar sobre as várias revistas que se propõem a arte como objeto” (GOBETTI, 1918, p.16).

Neste momento, Gobetti se deparava com um universo editorial profundamente indiferente aos problemas do país, formado majoritariamente por periódicos de literatos e professores nada afeitos ao debate público de ideias. A maioria das revistas italianas acumulava um grande volume de informações de pouca utilidade fora de restritos círculos intelectuais. O apelo aos jovens expressava justamente a vontade de aglutinar uma nova geração de colaboradores “anticonformistas”, mais engajada, capaz de constituir um público amplo e militante ao redor da revista (BAGNOLI, 1984, p.19). Justamente por isso, Gobetti procurava alinhar sua revista às “irmãs mais velhas” La Voce e, especialmente, L’Unità, que haviam promovido a cultura e o engajamento intelectual no ante-guerra.

A lado da valorização do idealismo e patriotismo entre os jovens intelectuais, a revista de Gobetti era fundada sobre uma posição negativa em relação à Revolução Russa. Já na primeira edição, o artigo do romancista dissidente Dimitri Merezhkovsky,[4] anunciado por Gobetti como a melhor expressão da “tragédia da alma russa que é a impotência de afirmar fortemente o sentimento nacional”, dava o tom da crítica à “revolução de classe” que substituíra a “revolução da pátria” em 1917 (MEREZHKOVSKY, 1918, p.5).

Com relação à revolução, Gobetti se orientava pela posição que Gaetano Salvemini sustentava em sua L’Unità, com o balanço de que a guerra havia surtido efeitos democráticos nos países derrotados (entre eles, a Rússia), levando a processos de crise das aristocracias rurais e das castas militares. Em quase todos estes países o movimento democrático se fortalecera com a vitória da Tríplice Entente, afirmava, levando a um processo de reforma constitucional (Alemanha) e ao surgimento de novas nações (Império Austro-Húngaro) (ibid., p.5). Neste processo, porém, caberia às novas instituições democráticas de modelo anglo-saxão “induzirem” novos “hábitos intelectuais e morais” nos povos destes países, no “espírito popular” acostumado ao nacionalismo bárbaro: faltava “a democracia criar democráticos” (SALVEMINI, 1918, p.217-219).

Apesar de sua crítica à revolução, Gobetti permanecia distante das posições nacionalistas e parecia atento ao problema dos limites da classe dirigente italiana e de seus intelectuais, especialmente sua incapacidade de perceber os efeitos da guerra para a vida popular – dentro e fora da Itália – e oferecer soluções. Tanto no plano internacional como internamente, a guerra suscitara importantes protestos de massa, sendo que na Itália o mais importante deles havia se dado justamente em Turim, com as manifestações massivas contra a guerra e pelo pão em agosto de 1917. Neste momento, Gobetti se somava à interpretação de que as transformações da cultura, centrais para o desenvolvimento no pós-guerra, eram antagônicas à Revolução Russa, assim como o Iluminismo fora antagônico ao jacobinismo no processo da Revolução Francesa.

Para o jovem estudante de direito, a saída para os problemas gerados pela guerra deveria vir da conformação de uma elite dirigente, a partir da herança de uma tradição cultural, no caso italiano daquela gerada ao longo do Risorgimento e promovida pelas revistas “irmãs mais velhas” La Voce e L’Unità cujo desenvolvimento se interrompera durante o conflito mundial (SP, p.46). Neste sentido, era por meio da publicação da Energie Nove, das conferências e da escola de educação política que passou a organizar entre os jovens, Gobetti esperava reconstruir a referência neoidealista em Turim, articulado a processos semelhantes que despontavam em outras cidades (PERONA, 1991, p.XXIV). O sentimento antibolchevique se orientava pela avaliação de que a Revolução de Outubro consistia em uma “degeneração do socialismo”, como escrevera em janeiro de 1919 na Energie Nove um soldado italiano recém chegado de Moscou, Pina Ballario (BALLARIO, 1919, p.82). Esta degeneração era a seu ver inevitável, resultado da própria concepção determinista marxista que alimentava o socialismo, na qual “a história se conforta na autoridade dos fatos e dados” (ibid., p.83).

Apesar desta caracterização, Gobetti mantinha relações cordiais com os jovens socialistas de Turim, entre eles Gramsci, os quais vinham de um processo de disputas internas a favor da importância da “cultura” no interior do PSI. Interessada em explorar justamente essa nuance do pensamento socialista, a Energie Nove publicou entre dezembro de 1918 e fevereiro de 1919 uma série de artigos polêmicos sobre o socialismo, entre eles um artigo de Antonio Gramsci, que nessa época acumulava já alguns anos como cronista e editor na imprensa socialista da capital do Piemonte. Gobetti já sabia das intenções destes socialistas em fundar a revista L’Ordine Nuovo, que seria publicada no início de maio, e pretendeu inicialmente aproximá-los do movimento liberal-democrático que organizava o Convegno degli Unitari [Congresso dos Unitários] proposto por Salvemini na revista L’Unità (C, p.38). [5]

A intenção de Gobetti era aproximar os setores que julgava serem mais críticos dos arroubos do “golpe de Estado” de tipo jacobino em curso na Rússia. Em carta enviada ao amigo e colaborador Santino Caramellam em 11 de março de 1919, Gobetti fez referência à revista L’Ordine Nuovo que estava para ser como aliança possível de um movimento unitário que, se não pode “evitar uma revolução” pudesse, ao menos, “trabalhar para conseguir propor uma nova ordem, caso a ordem atual se desmanche”, para que “a revolução não seja apenas vandalismo” (ibid., p.38). Em outra carta, de 31 de março, falou da seção socialista da qual Gramsci fazia parte como “um bom grupo de socialistas oficialistas (…) brigamos bastante, mas são gente sincera e ativa” (ibid., p.43).

Alguns meses depois, em abril de 1919, Gobetti participou do “Congresso dos Unitários”, que se revelou um esforço fracassado de articulação política-partidária ao redor das revistas neoidealistas La Voce e L’Unità. Como primeiro balanço desta derrota, Gobetti afirmou a limitação e imprecisão geral da política italiana, comum à todos os partidos italianos em “absorver o núcleo central da moral idealista” (ibid., p.75). Gobetti acusava nos partidos o “dissídio entre premissas e desenvolvimento”, o que impedia sua unificação estável e mantinha os interesses individuais acima dos ideais, gerando o desgosto e abstencionismo popular. A solução para combater esta crescente indiferença seria, então, “repensar as ideias” e “clarificar os princípios” para reconectar as necessidades da vida e os ideais que as transcendem (ibid., p.77). Estes princípios, para Gobetti, passavam longe de um programa para um “golpe de Estado”, e devera se afirmar em um Estado “transformado radicalmente, mas apenas mediante um trabalho longo e paciente que possa tirar do lugar e mudar um pouco também os homens” (ibid., p.79).

Gobetti apresentava a política como “essencialmente organização” “de interesses particulares, de interesses e concepções ideais, de problemas nascidos da contingência” (ibid., p.106-107). Neste sentido, apostava na organização de um movimento dedicado ao “estudo dos problemas concretos”, alimentado por uma “concepção ideal que atua em toda uma série de questões práticas” (ibid., p.107-108). Neste sentido, defendeu a conformação da Lega Democratica [Liga Democrática], um “movimento social” que deveria funcionar como uma frente com fins eleitorais, como alternativa à fundação de um partido político de tipo tradicional para, assim, recuperar ao Estado o princípio “da liberdade como um fato geral”, esta entendida “como árdua conquista gradual” e “esforço contínuo de cada indivíduo” (ibid., p.112).

A derrota como ponto de unidade

Assim como Gramsci, Gobetti via o governo italiano de Giovanni Giolitti – com sua corrupção e incapacidade generalizada – como “fenômeno de degeneração nacional”, mas diferia na análise da natureza deste problema. Enquanto Gramsci aprofundava sua leitura da crise irreversível, Gobetti acreditava na reforma democrática do Estado italiano e buscava amalgamar os intelectuais unitaristas ao redor de um movimento com a aposta no compromisso cívico de seus membros. Em 1920, com o ápice do ciclo de lutas operárias iniciadas em Turim, em 1919, a avaliação de Gramsci parecia se confirmar. Apesar disso, as fortes greves em cidades do norte da Itália, nas quais era experimentada pela primeira vez a “ocupação das fábricas” pelos operários e das quais Gramsci e os socialistas de Turim participavam organicamente, foram derrotadas. A falência das direções sindicais e reformistas se evidenciava na pressão por derrotar o movimento insurrecional, abrindo uma grave crise interna no PSI.

Neste contexto, ainda, o movimento da Liga Democrática, do qual Gobetti fazia parte, viveu sua crise derradeira. O movimento, aliado taticamente a setores nacionalistas desde as eleições de 1919, se esfacelou. Com ele, Gobetti decidiu pelo encerramento da revista Energie Nove, e deu início a um longo caminho de revisão crítica de suas ideias. Em junho de 1920, quando Giuseppe Prezzolini faz o balanço da falta de capacidade dos “democráticos” em “transformar sua verdade em convicção de massas”, por sua natureza “de ver a vida política segundo categorias não políticas”, a crítica, já envelhecia nos artigos de Gramsci do ano anterior, não era mais novidade para Gobetti e não fazia mais diferença (PREZZOLINI apud PERONA, 1991, p.XXX).

Em relato publicado na revista L’Unità, em meados de março, Gobetti relatou as discussões internas e resoluções do “grupo de Turim” para construção do movimento democrático (GOBETTI, 1920, p.51). Formado por um pouco mais de trinta pessoas, a maioria jovens intelectuais, o grupo se propôs a “continuar o trabalho cultural desenvolvido até aqui por L’Unità. Além disso, reafirmou seu compromisso com o “programa” da Liga Democrática para “promoção de um movimento de íntima renovação e oferecer uma consciência unitária”, livre de “todo dogmatismo”, à nação (ibid., p.51). Gobetti observava, porém, que faltava vivacidade na organização local, “sobretudo uma comunicação mais contínua”, que pudesse promover debates e conferências culturais e políticas. Quanto a “uma ação mais claramente e imediatamente política”, o grupo indicava a necessidade de “uma preparação cultural mais intensa”, mas curiosamente sinalizava que “uma maior aproximação das forças livres de algum passado imoral” poderia ser “útil para pensar no terreno prático, e recolher resultados que seriam absurdos de esperar” (ibid., p.51).

Por fim, Gobetti pontuou brevemente três resultados que atestavam a total derrota do movimento unitarista: a falência da Associazione Nazionale dei Combattenti [Associação Nacional dos Combatentes], que evidenciava a impossibilidade de constituição de um partido político democrático no Norte da Itália; a falácia da atuação parlamentar do Gruppo per il Rinnovamento [Grupo para a renovação], eleito a partir da coalizão construída peloa democráticos em 1919 e o questionamento cético se seria possível a constituição de um partido político no Mezzogiorno – pauta histórica do movimento unitarista – capaz de “guiar ao encontro da política as massas agrícolas do Sul” (ibid., p.51). Ou seja, Gobetti questionava a falta de consolidação interna, a fraca atuação parlamentar e, principalmente, a debilidade programática do movimento democrático.

O relato de Gobetti sobre o encontro do grupo de Turim revelava o aprofundamento de suas preocupações em relação ao movimento unitarista, suas alianças, objetivos e estratégia. Neste, é possível encontrar traços da comparação com a experiência ordinovista, em especial seu caráter fortemente disciplinado, expansivo e educativo. Justamente por isso, é possível suspeitar que o grupo da resenha socialista estivesse entre as forças políticas das quais Gobetti esperava se aproximar para a construção de um “terreno prático” de atuação. O conjunto de debates políticos realizado em comum, bem como a colaboração com L’Ordine Nuovo a partir de 1921 tornam essa suspeita mais factível. O importante é notar, ainda, a presença no relato do problema da organização política operária, contida no questionamento sobre a possiblidade de organização autônoma das massas camponesas do Sul.

Na primeira quinzena de junho de 1920, Gobetti participou do congresso unitarista realizado em Roma e, em carta para Ada, relatou sua frustração e ceticismo: “o congresso é desorganizado e inconcludente. Todos estão derrotados (…) É melhor terminar o equívoco desta Liga que não existe” (Ntbe, p.199). O movimento era incapaz de “tomar decisões” ou de ter “qualquer posição firme e consciente” e, ainda sim, “existe um grupo de jovens que querem a qualquer custo fundar um partido, mesmo sacrificando a necessidade das ideias claras” (ibid., p.201). Por fim, Gobetti relatou que o congresso havia apontado a criação de um partido político aliando “combatentes e camponeses” (ibid., p.204).

“O experimento unitário estava próximo do fim e Gobetti sabia. Nunca existiu o tal novo partido, nem se realizaria o congresso de Nápoles apontado para o mês de agosto, depois do violento ataque de setores nacionalistas do movimento contra Salvemini. Ao final de 1920, Salvemini encerraria definitivamente a revista L’Unità e interromperia sua atividade parlamentar” (PERONA, 1991, p.34).

Em fins de junho, Gobetti escreveu uma carta para Giuseppe Prezzolini atendendo ao pedido de mais informações sobre os socialistas de L’Ordine Nuovo. Nesta, além da admiração pessoal pela figura de Gramsci, Gobetti mencionou o fato deste ter “percebido o problema dos conselhos de fábrica” e ter imposto a elaboração de um “órgão de ação”, quando seus companheiros pensavam em “fazer uma revista de cultura” (C, p.121-122). Por meio de L’Ordine Nuovo, continuava, “se está formando em Turim um pequeno núcleo de operários conscientes que atuam com vontade decisiva nos conselhos de fábrica” e, mesmo com uma tiragem de 3 mil exemplares, a revista chegava a alcançar 50 mil operários metalúrgicos na capital do Piemonte (ibid., p.123).

Este núcleo, afirmou Gobetti, fora responsável por fundar os conselhos de fábrica na Fiat, impondo a “greve dos ponteiros contra a direção do PSI, sempre ausente e contra os sindicatos, eternamente oportunistas” (ibid., p.123). Apesar das convicções de Gramsci, concluía: “não acredito que o sistema de Turim possa ser transportado para outros lugares com os mesmos resultados (…), se trata de um fenômeno devido ao trabalho individual de poucos. Certamente não são as leis marxistas a se impor” (ibid., p.124). Apesar disso, Gobetti nutria grande admiração pela atuação de Gramsci e de L’Ordine Nuovo, que interpretava como “o eterno fenômeno da minoria que se impõe, mesmo entre os socialistas que propagam a igualdade” (ibid., p.123-124).

Ao final do ano, em 30 de novembro, Gobetti publicou o artigo La Rivoluzione Italiana [A Revolução Italiana] na revista L’Educazione Nazionale. Este fora escrito em outubro, logo em seguida ao fim do movimento das ocupações de fábrica, o qual Gobetti acompanhara com muita simpatia, constatando que: “não existe entre nós uma consciência unitária” (SP, p.187). Apesar disso, “o ardor da vida que em tantos se nota e o próprio movimento operário parecem oferecer grandes possibilidades e rumos luminosos para o presente” (ibid., p.187). “Todos os desastres”, “as lutas”, “desventuras” não devem assuntar, “mas se o movimento permanecer exterior e fragmentário” tudo pode ser perdido (ibid., p.187). A mudança em sua forma de encarar os acontecimentos nascia da vivência de uma grande derrota, e era notável.

Gobetti compreendida o sentido trágico da revolução italiana, de uma nova Itália que só poderia nascer da combinação “entre o sentido de realidade e o ardor tenaz da prática” (ibid., p.188). “A ideia de pátria morreu”, continuava Gobetti, enterrada pela Revolução Russa e substituída pela ideia de Estado, evidência cultural de sua conquista notável. Na crise revolucionária italiana, as fórmulas caíam (liberalismo, catolicismo, socialismo). O liberalismo morria por não resolver o problema da unidade e ter permanecido como arte de governo. O último esforço, o jornal de Salvemini, ainda que precursor de novos tempos, não conseguira escapar dos dilemas da administração (ibid., p.189). O catolicismo, por sua vez, matara a ideia liberal, mas também fora intimamente débil, mesmo em suas versões mais modernizadas. Negou a história para afirmar a tranquilidade burguesa e renuncista. Atuou sobre a multidão camponesa para que esta destruísse a civilização (ibid., p.190). O socialismo, por fim, fora o mito que se desfez no momento de sua realização, negando seus próprios programas e ideias.

Assim como Gramsci, Gobetti via as fórmulas caírem. A realidade que se instalava, aquela capaz de passar da política à história e cultura, a única realidade ideal e religiosa da Itália, era o movimento operário (ibid., p.189). O jovem liberal não acreditava que a massa fosse “evoluída e consciente”, mas isso não era importante (ibid., p.190). O povo se tornava Estado. Concluía, então, que isto não fora responsabilidade os liberais; tampouco dos socialistas com seu partido. O movimento operário emergente transcendia todas estas premissas. “É o primeiro movimento laico da Itália. É a liberdade que se instala” (ibid., p.190).

Um pensamento em movimento

Na segunda metade do século XX, passou a ser comum entre os intelectuais italianos discutir a atualidade do pensamento de Gobetti e de sua relação com Gramsci (ver BOBBIO, 1984, 1986). Neste novo contexto, esta reflexão remeteu a uma afinidade teórica possível entre liberalismo e marxismo e, em termos práticos, sustentou alianças e compromissos possíveis entre liberais, democratas, católicos e comunistas italianos. Considerado sob o ângulo deste “novo” uso e de suas trágicas consequências para a vida política italiana e europeia desde então, seria impossível afirmar hoje alguma atualidade para o pensamento de Gobetti e de sua relação com Gramsci.

Contudo, é ousado afirmar uma atualidade, mais discreta e silenciosa que as bravatas dualistas daqueles “liberais” e “marxistas”. Uma atualidade nascida da experimentação histórica, da luta e, principalmente, da derrota. Em particular, a atualidade de Gobetti emerge do olhar sobre sua trajetória em movimento, do caráter aberto com que se entregou à vivência política e à audácia com que tratou a reflexão sobre esta experiência. O movimento de seu pensamento encontrou os trabalhadores em movimento. O amálgama foi possível sem que houvesse qualquer sincronia automática ou prévia.

Gobetti descobriu “na prática” – e em seguida na teoria – que o liberalismo se aliava definitivamente ao passado, ao conservadorismo, e se evidenciava como uma teoria estática com a finalidade de conter a novidade, o movimento político das classes subalternas. Quando, em 1922, Gobetti propôs uma “revolução liberal”, sua intenção era renovar as estruturas carcomidas desta visão de mundo que envelhecia rapidamente. Sua referência para tal era a Revolução de Outubro. Em sua última batalha antes de morrer no exílio, contra o fascismo recém feito regime, dificilmente encontrava aliados entre os intelectuais liberais que uma vez erguera ao posto de mestres e dirigentes. Estes preferiam a “neutralidade” e indiferença.[6] Ao seu lado, nas prisões e nas ruas, estava apenas aquele movimento operário descoberto em 1919 e 1920 nas barricadas de Turim.

Referências bibliográficas

BAGNOLI, P. Piero Gobetti. Cultura e politica in un liberale del Novecento. Firenze: Passigli, 1984.

BALLARIO, P. Socialismo e Bolcevismo. Energie Nove, v. 1, n. 6, p.82-83, 15-31 jan. 1919.

BOBBIO, N. Prefazione. In: BAGNOLI, P. Piero Gobetti. Cultura e politica in un liberale del Novecento. Firenze: Passigli, 1984.

______. Gobetti e Croce. Nuova Antologia, v. 555, n. 2160, p.207-210, out-dez 1986.

GERVASONI, M. L’intellettuale come eroe. Piero Gobetti e le culture del Novecento. Firenze: La Nuova Italia, 2000.

GOBETTI, P. Ai collaboratori. Energie Nove, v. 1, n. 1, p.16, 1918.

______. Pel convegno degli “unitari”. L’Unità. Problemi della vitta italiana, v. 8, n. 7, p.37, 15 fev. 1919a.

______. Verson una realtà politica concreta. Energie Nove, v. 2, n. 2, p.33-34, 20 mai. 1919.

______. Gruppo di Torino. L’Unità. Problemi della vitta italiana. v. 9, n. 12, p.51-52, 18 mar. 1920.

______. Scritti politici. Torino: Giulio Einaudi, 1960. [SP]

______. L’editore ideale. Frammenti autobiografici con iconografia. Milano: All’insegna del pesce d’oro, 1966. [EI]

______. Carteggio 1918-1922. Torino: Giulio Einaudi, 2003. [C]

______.; GOBETTI, A. Nella tua breve esistenza. Lettere 1918-1926. Torino: Einaudi, 1991. [Ntbe]

MEREZHKOVSKY, D. L’anima russa e la rivoluzione. Energie Nove, v. 1, n. 1, p.5-6, 1918.

PERONA, E. A. Introduzione. In: GOBETTI, P. e GOBETTI, A. Nella tua breve esistenza. Lettere 1918- 1926. Torino: Einaudi, 1991.

PREZZOLINI, G. Gobetti e La Voce. Firenze: Sanzoni, 1971.

SALVEMINI, G. La Guerra e La Pace. L’Unità. Problemi della vitta italiana, v. 7, n. 45, p.217-219, 9 nov 1918.

[1] Em um de seus poucos registros autobiográficos, Gobetti descreveu o perfil pequeno-burguês e urbano de sua família: “meu pai e minha mãe possuíam um pequeno comércio. Trabalhavam dezoito oras por dia. O meu futuro era o seu pensamento predominante. (…) O empenho do seu trabalho era ascender e ascender, não tanto para ter uma vida mais fácil, mas para ter a cabeça erguida, permitirem-se e permitir a mim uma vida com dignidade” (EI, p.6).

[2] Em carta de 11 de novembro de 1919 ao amigo e colaborador Santino Caramella, Gobetti declarou “foi praticamente ele [Giuliano] que me aproximou de L’Unità” (C, p.85).

[3] “Encontrei em Turim e mesmo fora muita apatia e desconfiança, mais do que imaginava; o trabalho [da Energie Nove] me parecia então inútil ou muito frágil diante da corrupção e superficialidade deste nosso mundo” (C, p.12).

[4] Dimitri Merezhkovsky (1865-1941) foi um romancista, poeta e crítico literário russo inspirado pelo simbolismo e por grandes nomes da literatura russa como Pushkim, Dostoievsky e Tolstoi. De orientação fortemente cristã, Merezhkovsky se tornou um ferrenho opositor da Revolução de Outubro e, após autoexílio em 1918, passou a atuar fortemente como detrator do Estado soviético, chegando a flertar com o fascismo e o nazismo na década de 1930.

[5] Desde janeiro de 1919, Salvemini e seus colaboradores discutiam os termos de um Congresso dos Unitários, para reunir leitores e intelectuais engajados na revista L’Unità. Gobetti aderiu a esta iniciativa da “parte mais inteligente da nação”, que interpretava como uma saída para o problema da organização dos jovens (C, p.38).

[6] Para a polêmica de Gobetti com Giuseppe Prezzolini sobre isso, cf. Prezzolini (1971).