Ilustração Marlon Anjos
Ilustração Marlon Anjos

Um teatro de outro mundo

Marianna Araujo

“Poucas ilusões resistem, mas cabe ao homem

descobrir e usar suas razões de viver”.

(Carlos Drummond de Andrade)

Passava das 19h quando um ator encapuzado listou ao microfone do teatro Glauce Rocha, centro do Rio de Janeiro, uma espécie de cardápio do que veríamos naquela noite: polícia militar, civil, CORE, BOPE, Aeronáutica, Exército, tanque, pistola automática, AK 47, AR 15, UZI, FAL, granada. Ele descrevia a invasão de uma favela por forças policiais. O arsenal de guerra frequentemente utilizado para a suposta captura de criminosos quase sempre descamisados, mas também fortemente armados, provoca logo nos primeiros minutos do espetáculo um sentimento que permanece ao longo da peça. É algo que transita entre a melancolia da tragédia e o espanto do absurdo e que não termina ali. Persiste quando saímos do teatro e pensamos, por exemplo, que os atores (também boa parte da plateia) voltarão para suas casas naquele cenário real em que um helicóptero com AK 47 faz parte da paisagem e os tiros de fuzil decoram as paredes. Talvez por isso ouviu-se um riso nervoso na plateia quando a extensa listagem de polícias e armas foi concluída.

O espetáculo Eles não usam tênis naique começa com o relato de mais uma das (aparentemente) infinitas operações em favelas para nos apresentar Rose, uma traficante em fuga que ao esconder-se num apartamento dá de cara com seu pai, Santo, desaparecido há muitos anos. Santo foi criminoso no passado e fugiu do lugar para não ser morto, evitando também uma possível retaliação com sua família. Pai e filha se encontram e é a partir do diálogo entre os dois, acertando ponteiros de suas histórias do passado e do presente, que o espetáculo se desenrola.

Esta é a quinta peça da Cia Marginal e a primeira vez que ela monta um texto teatral. O grupo formado em 2005 na Maré vinha trabalhando até aqui apenas com textos colaborativos, elaborados a partir de pesquisas de campo e contribuições coletivas. O espetáculo que reúne em curta temporada Jaqueline Andrade, Wallace Lino, Phellipe Azevedo, Geandra Nobre e Rodrigo Souza, tem direção de Isabel Penoni e texto original, inédito de Márcia Zanelatto.

Antes de prosseguir, uma explicação. A curta ficha técnica do espetáculo não tem outro objetivo senão situar um pouco o leitor que desconhece o trabalho do grupo. Este não é um texto que pretende analisar o espetáculo, seus fundamentos, cenário, sonoplastia e direção. Faltam-me recursos para tanto. Minha intenção é mais modesta: pretendo apenas partilhar o forte impacto que a peça me causou, aquele misto de tristeza, inevitável diante da bala e do sangue; e pasmo, uma espécie de incredulidade diante do absurdo da barbárie. Não é que eu não conhecesse o que se apresentava ali, é que olhar a barbárie de longe, em cima do palco, num ambiente controlado como o teatro, ainda causa estranheza, desconforto, surpreende, provoca aquele riso nervoso que você não sabe de onde vem. Esse talvez seja um bom sintoma, lembrando-nos que aquilo, por mais que se conheça, não deve ser banal.

Eles não usam tênis naique tem seu principal recurso em algo que a Cia Marginal já havia demonstrado nas peças anteriores. É a atuação visceral do atores o ponto alto da encenação. Talvez por isso, alguém dizia na saída que uma das atrizes parecia não encenar, “parecia ela mesmo”. Ou que a plateia, na conversa com os atores ao final da peça, insistia em destacar o “fôlego” deles e o ritmo extremamente realista que dão ao espetáculo. De fato há algo de instigante e diferente que faz daquele um teatro raro de se ver no Brasil. Isso ficou claro quando Wallace Lino nos contou que um ensaio poucas semanas antes da estreia foi praticamente desperdiçado. Os atores, aos prantos, não conseguiam atuar. Acordaram horas antes, em suas casas na Maré, ao som de um helicóptero com seu indefectível fuzil apontado pra baixo, e saíram com medo rumo ao teatro. Como é que se encena a brutalidade da bala perdida que acha os mesmos corpos minutos depois de assisti-la na realidade?

É essa intricada relação entre ator e personagem; palco e beco; vida e polícia; fuga e morte que vemos o tempo inteiro. E num dado momento do espetáculo, quando sentados de frente pra plateia os atores/personagens nos contam sobre sua vontade, ou não, de sair da favela, nos damos conta de que o lugar do ator é o beco, quando a lógica é que ocupasse o palco. Mas é que o beco é de verdade, não é cenário, nos lembram eles. E se polícia é morte – pois como lembra a personagem Rose, “eles num entra aqui pra prender, não, ele só entra aqui pra matá” -, a vida talvez só seja possível com a saída definitiva da favela.

Este é um ponto extremamente sensível da noite. Ouvir jovens envolvidos estética e politicamente com a favela dizerem que desejam sair dali é algo que não passa sem arranhar a carne. Acostumamo-nos, aqueles envolvidos com alguma discussão e militância sobre as desigualdades urbanas e o controverso “direito à cidade”, com moradores que resistem. À remoção, ao clientelismo, à criminalização, à violência cotidiana. Há anos ouvimos um discurso que, buscando se opor à violência do Estado e à difusão de estereótipos, reforça que a favela tem memória, tem beleza, tem sua gente, seu samba, seu funk, seu rap, tem o palco. O que aparecia ali, aparentemente, era o beco, escuro, iluminado pelo brilho do fuzil dourado de cá, onde ao fundo se vê uma sirene que de segundo em segundo ilumina o fuzil de lá. Esse estranhamento ganhou outros contornos com a conversa ao final do espetáculo. Alguém lembrou que certos temas não são fáceis de tratar, afinal, quem quer expor suas feridas? A mídia já trata a favela como lugar de violência à exaustão. Por que não mostrar outros aspectos? É a favela ou a sociedade em que vivemos que é violenta? Favela é parte da sociedade ou algo a ser eliminado dela?

Foi então que uma intervenção da plateia lançou luz sobre aquilo que parecia confuso. Um casal pediu a palavra, contou que mora em Costa Barros e que estava passeando pelo centro. Optaram por assistir à peça, com certa resistência dela – “já moro na favela e ainda vou vir pra cá ver favela?”. Ainda assim, afirmaram que valeu o risco. Viram ali muito do que vivem. Não apenas pela violência retratada, mas sobretudo porque querem sair da favela também. Querem sair não porque morar lá é simplesmente ruim, ela fez questão de enfatizar, listando em seguida uma série de elogios ao lugar onde mora. A saída é quase que um exílio, sair é preciso pra sobreviver – e não falo metaforicamente. O nome dela, a mulher do casal, é Rose (mesmo nome da personagem) e ela vive em Costa Barros, a favela “do momento”, das grandes operações, do criminoso “mais procurado de todos os tempos da última semana”. A Rose da vida real veio da favela que os jornais nos dizem ser o centro de onde emana todo o perigo de nosso tempo para ouvir a Rose do teatro lhe explicar o buraco em que vive. A personagem diz, apontando pro céu: – Esse céu que tem “anjinho e porra e tal, ali é um buraco, e a gente [vive] aqui no fundo do buraco, na lama, porque merda fica no lugá de merda. Se a gente num fosse merda, tiro num matava a gente”. Eu que não acredito em coincidência, deixo à interpretação de cada um.

O medo ali parecia uma palavra-tudo, para usar a expressão de Carlos Drummond de Andrade. Ele definia tudo. O medo de viver e de morrer, de ficar e de fugir, medo até de ir ao teatro. Medo de ter filhos que não irão à escola, que podem morrer antes dos 15 anos ou que se chegarem aos 16 serão presos. Medo da chacina semanal que uma hora bate à porta. Porque a merda, ao que parece, não oferece mais nada que o medo e merda fica com medo no lugá de merda – ou foge desse lugar pra um barraco em Minas Gerais, como queria o Santo.

É como resume Rose, “nesse mundo não tem mais certo, o certo ‘cabô’, num existe mais. Se tá falano do certo, num tá falano desse mundo”. Se não é o medo, não é desse mundo. É fantasia. É mentira. É utopia.

Walter Benjamin, num texto sobre experiência, cultura e barbárie afirma que a desmoralização das experiências coletivas nos fez perder a capacidade de transmitirmos saberes, conhecimento, a própria tradição contida na experiência. “Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome”, a experiência da vida pelo tiroteio, poderíamos acrescentar. Ou da rua pelo caveirão. Ou do sono pelo helicóptero com seu fuzil.

Tanto Benjamin quanto Rose falam em algo que não existe mais. Para ele, a transmissão da experiência, para ela o “certo”, a vida longe da violência. O alemão está refletindo sobre uma vida social fragmentada pelo desenvolvimento da técnica e por relações baseadas na mercadoria. Rose, por sua vez, fala de uma vida fraturada pela bala – em muitos caso, literalmente, como ficamos sabendo quando ela conta do assassinato, com 50 tiros, do namorado. “Eu num lembro como era a cara dele, só ficou aquela cara ‘rebentada’, cheia de sangue e buraco preto”. Benjamin e Rose, cada um a seu modo, falam sobre a barbárie e os sentidos que ela contém.

A barbárie nos deixa pobre de experiências, mas, segundo Benjamin, é possível encontrar nela um aspecto positivo. Para ele, a barbárie nos impele “a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda”. Talvez seja isso o que faz a Cia Marginal. Se a arte é de fato “uma alquimia que transforma o banal em maravilha e inventa a vida”, como afirmou Ferreira Gullar recentemente, o experiente grupo da Maré parece tomar pelas mãos o medo, já banal, destrinçá-lo, elevá-lo à décima potência e “começar de novo”.

Eles não usam tênis naique mostra que a vida pode inventar a arte pra que essa reinvente a vida num ciclo infinito que não se rompe nem com polícia militar, civil, CORE, BOPE, Aeronáutica, Exército, tanque, pistola automática, AK 47, AR 15, UZI, FAL, granada. Falar do “certo”, como disse Rose, realmente não é desse mundo, ainda é do terreno da utopia. Há de se chegar o tempo em que o certo, as ilusões e a vida mesmo não se restrinjam ao teatro.

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Passeios na IIlha. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 114-119.

ZANELATTO, Márcia. Eles não usam tênis nike. In: Sexualidade, violência e justiça nos espaço populares do Rio de Janeiro: problemas e alternativas. I concurso de produção textual do Observatório de Favelas. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, Cesec e Clam, 2004.

*Utilizei o texto original de Márcia Zanelatto, preservando sua grafia, para citar as falas dos personagens. Por isso, é possível que existam sutis diferenças em relação à peça. A citação inicial, sobre a invasão da polícia, fiz de memória – é, portanto, possível que haja muitas diferenças em relação à peça.