Bordado de Pedro João Cury
Bordado de Pedro João Cury

Vale: “O nosso negócio é estar presente na sua vida”

Giovane Ramos

A necessidade do fortalecimento da crítica, como atividade transformadora e emancipatória, sobre a chamada “sustentabilidade”, se coloca como fundamental para tornar pensáveis as grandes questões do equilíbrio socioambiental. Considerando-se as transformações ocorridas, particularmente, a partir da Revolução Industrial, potencializa-se uma exploração sem precedentes dos recursos naturais em desajuste com o denominado e questionável desenvolvimento sustentável, pautado no tripé sociedade, economia e meio ambiente. A questão ambiental pensada de modo ampliado, não poderia comportar então, industrialização intensa e preservação ambiental sem causar danos ao homem e no que nos interessa especificamente, à sua constituição ético-política. Logo, se a própria história nos mostra que a riqueza mundial e a pobreza foram construídas através de relações de exploração, torna-se difícil compreendermos a melhoria na qualidade de vida das pessoas sem considerarmos custos humanos e sociais uma vez que se impõe uma forma de pensar os espaços sob o fetichizado ponto de vista dos seus recursos naturais e não das perspectivas humanas e culturais. Urge o permanente diálogo com aqueles e aquelas que de alguma forma entendem o atual modo de produção capitalista como agente das condições promotoras da dissociação homem-natureza e a consequente degradação ambiental.

Na busca (ou resgate!) da (re)apropriação do sentido de existência pelo sujeito histórico, a partir da compreensão das mediações e contradições inerentes às relações sociais da produção é forçoso nos questionarmos sobre as consequências advindas da sua reprodução. Numa acepção   gramsciana para educação e cultura, falamos das condições formativas que permitam ao homem se formar e se fortalecer, segundo os avanços técnico-científicos e também, intelectualmente, preparando-o para entender o seu lugar na lógica capitalista e num embate coletivo, buscar a sua superação indo de encontro ao caráter instrumental-utilitarista presente em muitos projetos, como por exemplo, os diversificados projetos capitaneados pela Vale e suas “parceiras”.

O materialismo histórico-dialético comporta a tarefa no sentido de desvendar essa realidade fragmentada e articulada com o senso comum e assim, com vistas a identificar a real possibilidade de uma sociedade sustentável para além do conhecimento tecnicista sobre o ambiente e em defesa da construção coletiva de uma qualidade de vida justa e responsável socialmente. Frente às tantas mudanças ocorridas face aos paradigmas produtivos, do taylorismo-fordismo ao modelo de especialização flexível, visualizamos uma realidade caracterizada por uma crise ambiental que assume formas incontroláveis haja vista que o ambiente natural e social não suportou as contínuas intervenções necessárias ao processo produtivo, revelando-se então uma prática predatória.

Problematizar o ambiente assim como problematizar a educação é um ato eminentemente político. Implica na participação radical e efetiva dos sujeitos envolvidos consideradas as qualidades e capacidades necessárias à ação ambiental transformadora responsável diante do ambiente em que vivemos. Dessa forma antagoniza com o caráter sensibilizador e ingênuo, que perpassa a compreensão da educação ambiental, por vezes, moralista e indutor de comportamentos disciplinados, imediatistas. Conceitos caros aos teóricos materialistas como sociedade civil, participação popular, omnilateralidade, entre outros sofrem ressemantização imposta pela apropriação indevida pelo pensamento hegemônico dominante, nada afeito às práticas sociais voltadas para a liberdade concreta e universal dos homens.

E a Vale sabe disso… A despeito dos links da sua página eletrônica, transbordante na alegria gritantemente estampada no rosto de seus inúmeros colaboradores, voluntários, parceiros e demais arranjos polissêmicos, “a empresa privada que mais investe no País”, seguiu brincando com toda forma de vida ao seu alcance, afinal, a “coisa em si” não se manifesta imediatamente e aparência e essência conformam uma dialética. E quando o fez, foi sob tragédia anunciada. Sendo a palavra um “fenômeno ideológico por excelência (…) material privilegiado da comunicação da vida cotidiana (…) acompanha e comenta todo ato ideológico” (Bakhtin, 1997, p.35), dessa vez, não valeu. A Vale “desrespeitou” um dos seus pilares, a “Responsabilidade Social: Comprometimento com o conceito de desenvolvimento sustentável e correto posicionamento da empresa frente às comunidades próximas das áreas de atuação e na recuperação e proteção do meio ambiente”.[1]

Historicamente, surgiu para viabilizar o “Consenso de Washington”. Vale lembrar que desde a sua implantação, em 1942 na cidade de Itabira, no interior de Minas Gerais, a Companhia Vale do Rio Doce impôs um modo de produção insalubre e penoso. O processo de formação dos operários é operado sob condições adversas: o ritmo da produção é acionado pela força humana, moldada por uma resistência peculiar, num ambiente competitivo e sob vigilância. Uma vigilância que extrapolou os muros da empresa, chegou às famílias e tomou conta da cidade, num processo de apropriação subjetiva sob o olhar assistencialista do Estado. Àquela época, sob a iniciativa do Ministério do Trabalho, formaliza-se a organização sindical dos trabalhadores. A legislação trabalhista cujo objetivo era “defender os interesses econômicos, jurídicos, higiênicos e culturais dos trabalhadores”, na realidade, regulava os sindicatos cuja finalidade era reorientar as relações entre capital e trabalho e, principalmente, controlar a tendência de autonomia dos trabalhadores (Minayo, 2004). É descabido exigir que ao entorno fosse destinado um tratamento valioso.

De caráter transnacional, da era da mecanização (anos 1970) à reestruturação produtiva de ordem mundial, a sua história se confunde com a formação da classe trabalhadora brasileira, num momento de definição de políticas nacionais sob a aura do nacional-desenvolvimentismo. A constituição dos trabalhadores evidencia-se mais como uma demonstração de orgulho vinda daqueles que se entregaram à construção de uma das maiores organizações do mundo (Minayo, 2004) que extrai, transforma, produz, transporta e exporta produtos. A logística é um dos pontos-chave para a alavancagem da vantagem competitiva, com expressiva movimentação de carga – grãos, produtos industriais e bens de consumo – em ferrovias e portos. Para Itabira, cidade economicamente desfavorecida, a chegada da CVRD traduziu-se em “emprego fixo”, “são os direitos sociais”, “é a vida melhor”, “ela nasceu pequena, pobre que nem nós, hoje é esse monstro que está aí”, enfim, “foi o progresso que chegou”. Sob a ideologia nacional-desenvolvimentista, instaura-se então, o processo de estatização da Vale, que se instala e se expande, tendo como uma das metas o projeto de desenvolvimento da região do Vale do Rio Doce. Contraditoriamente, a Vale surge durante a expansão das reivindicações do operariado nacional em busca dos seus direitos trabalhistas ao mesmo tempo em que ocorre o movimento de industrialização voltado para a substituição de importações. Surge como exportadora e assim permanece até os dias atuais e segundo seus relatórios

“em todas as cidades em que mantém operações, a Vale busca uma relação próxima com o poder público traduzindo em ações a sua visão de cidadania e responsabilidade social corporativa. A Companhia acredita que a participação da iniciativa privada em favor da questão social é imprescindível e deve acontecer no formato de parcerias, sem substituir a atuação pública das autoridades”. (p. 93)

(…)

“A atuação da Vale é pautada por uma gestão transparente, pelo respeito aos direitos dos acionistas, pela proteção ao meio ambiente, pelo desenvolvimento de seus empregados e pela promoção da melhoria da qualidade de vida das comunidades” (p. 7)

A Vale fez com que a ideologia da carreira aliada a ideologia da cidadania abrisse espaço para a expansão de projetos formativos (universidade corporativa e “ outras brincadeiras semelhantes”, como diz Gramsci). Tais projetos extrapolam os muros da Vale e chega às comunidades onde suas unidades operacionais estão inseridas. Noutras palavras, trata-se da nova forma de constituição do sujeito nos moldes da acumulação flexível. Embora constatemos que a crise ambiental é global, é verdade também que ela atinge aos povos e nações de formas distintas. Face ao desenvolvimento desigual e combinado e, consideradas as condições objetivas, cada um desses, absorve e responde à crise de maneira peculiar. Para Maria Ciavatta Franco (2003: p.57), “o conceito de educação do homem integrado às forças sociais difere da mera submissão às forças produtivas”. Segundo Antunes: […] Foram tão intensas as modificações que se pode mesmo afirmar que a classe-que-vive-do-trabalho sofreu a mais aguda crise deste século, que atingiu não só a sua materialidade, mas teve profundas repercussões na sua subjetividade e, no íntimo inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser” (1995: p. 23). Isso posto, sob o capitalismo, como mostra Mészaros (1981, p. 17), “o homem está alienado da natureza; de si mesmo (de sua própria atividade); do seu ser genérico como membro da espécie humana); o homem está alienado do homem (dos outros homens)”. Assim, o trabalho, a ciência, a técnica e a tecnologia, sob o capitalismo, deixam de ter centralidade como produtores de valores de uso para os trabalhadores “resposta as necessidades vitais desses seres humanos” e se transformam em meios de produzir alienação e a ampliação do capital dos proprietários privados dos meios e instrumentos de produção. (FRIGOTTO, 2006: pp.247-248)

Gramsci retoma a premissa de Marx sobre o trabalho enquanto criação humana, uma vez que ao modificar a natureza, aplicando potencialmente as suas habilidades e a sua vontade, o homem modifica a si mesmo e consequentemente as suas relações sociais.

Para Gramsci:

“O conceito do equilíbrio entre ordem social e ordem natural com base no trabalho, na atividade teórico-prática do homem, cria os primeiros elementos de uma intuição do mundo liberta de toda magia ou bruxaria, e fornece o ponto de partida para o posterior desenvolvimento de uma concepção histórica, dialética, do mundo para a compreensão do movimento e do devir, para a avaliação da soma de esforços e de sacrifícios que o presente custou ao passado e que o futuro custa ao presente, para a concepção da atualidade como síntese do passado, de todas as gerações passadas, que se projeta no futuro (GRAMSCI, 2004, p.43).

Sob os auspícios do toyotismo que adestra, disciplinariza, expropria e aliena, o poder hegemônico do capital promove a destruição da cultura operária em favor da cultura delineada pelos valores da opressão e da submissão em que a comunidade é levada a privilegiar a cidadania que se constitui a partir das relações com a Vale: a cidadania corporativa. Buscando a sua universalização, a Vale se propõe como a educadora de novo tipo, pretensiosa de (con)formar, não somente os seus profissionais mas, também, o país à sua imagem e semelhança ressignificando o caminho para a disciplinarização do cidadão que vale, sob a faceta de ações sociais que, ancoradas na responsabilidade socioambiental delineiam o perfil válido para o télos da vantagem competitiva, na medida em que orienta espaços educativos com vistas à excelência mundial. A Vale segue universalizando a exclusão e conta com o apoio da comunidade para o seu êxito.

E Netto e Braz concluem:

“Homem e natureza constituem uma síntese. A sociedade não pode existir sem a natureza – afinal, é a natureza, transformada pelo trabalho, que propicia as condições da manutenção da vida dos membros da sociedade. Toda e qualquer sociedade humana tem a sua existência hipotecada à existência da natureza – o que varia é a modalidade da relação da sociedade com a natureza; (…) a reprodução da sociedade depende da existência da natureza (a natureza, porém, pode existir e subsistir sem a sociedade)” (2007, p. 35).

Referências

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 3 ed. São Paulo: Cortez; Campinas,SP: Editora da Unicamp,1995

BAKHTIN, Mikail. Marxismo e Filosofia de linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1997

CVRD. Companhia Vale do Rio Doce. [on-line]. [Capturado em 03/03/05]. Disponível em : http://www.cvrd.com.br

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v.2. edição e tradução Carlos Nelson Coutinho; co-edição, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

MÉSZÁROS, István. Marx: a teoria da alienação. Tradução Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

MINAYO, Maria Cecília S. De ferro e flexíveis: marcas do Estado-empresário e da privatização na subjetividade operária. Rio de Janeiro: Garamond, 2004

NETTO, José Paulo, . BRAZ, Marcelo. Economia Política: uma introdução crítica. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2007. (Biblioteca Básica do Serviço Social)

RAMOS, Giovane S. Um novo espaço de conformação profissional: a Universidade Corporativa da Vale do Rio Doce – VALER- e a legitimação da apropriação da subjetividade do trabalhador. Rio de Janeiro/RJ.2007. Dissertação (Mestrado Ensino em Biociências e Saúde)) – Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ

_____. Notas para uma contribuição ao debate no campo ambiental sob a perspectiva da práxis. Disponível em http://bit.ly/1lmJVDo

Notas

[1] Alguns projetos formativos e “cidadãos”: Vale Ambiente, Vale Capacitação / Educação Inclusiva, Educação de Jovens e Adultos / SESI Educação do Trabalhador, Centro de Educação Profissional do Vale do Itacaiúnas, Vale Informática, Tecendo o Saber, Escola que Vale, Vale Alfabetizar, Programa de Educação Afetivo-sexual . Peas Vale, Educação nos Trilhos, Canal Futura, Voluntários Vale, Terças no Museu, Estação da Cidadania, Olha o Trem / Lá Vem o Trem, Educação Ambiental, Projeto Animação, Universidade Corporativa da Vale do Rio Doce – VALER dentre outros, disponíveis em www.cvrd.com.br

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